Para cortar custos, vale até fazer funcionário perder peso

Data 25/08/2014

Para cortar custos, vale até fazer funcionário perder peso

Para enfrentar os custos médicos cada vez maiores, a empresa petroleira BP ofereceu no ano passado a Cory Slagle – um ex-jogador de futebol americano de 117 quilos – uma forma incomum de cortar US$ 1.200 de sua conta anual de plano de saúde.

Uma das opções era vestir um bracelete de monitoramento de condicionamento físico da FitBit para ganhar pontos de forma a conseguir um plano de saúde mais barato.

Com o aparelho, o ex-atleta de 51 anos caminhou mais de 1 milhão de passos ao longo de vários meses, registrando a atividade no dispositivo sem fio.

Doze meses depois, Slagle ampliou seu novo regime de exercícios trocando hambúrgueres por saladas e refrigerantes por água, perdendo 31,8 quilos e 10 numerações de calça no processo.

“Eu posso ver os dedos do pé agora”, disse Slagle, administrador de uma escola de Ensino Médio cuja esposa, Kristi, trabalha para a BP em Houston. O programa da empresa, disse ele, está “me obrigando a sair do sofá e tomar as decisões corretas”.

A esposa de Slagle está entusiasmada com o corpo mais enxuto de seu marido – e a BP também.

Seus níveis de pressão sanguínea e de colesterol, antes altos, agora estão em uma faixa normal, reduzindo significativamente o risco da BP de cobrir tratamentos relacionados a problemas cardíacos ou outros problemas médicos.

A experiência de Slagle é um exemplo de como as empresas, que estão enfrentando despesas crescentes de saúde, cada vez mais estão comprando ou subsidiando aparelhos de monitoramento de condicionamento físico para incentivar os funcionários e seus dependentes a ficarem mais em forma.

A tática pode reduzir os custos corporativos de saúde encorajando estilos de vida mais saudáveis, mesmo que as empresas precisem superar o temor e a preocupação, por parte dos defensores da privacidade, de os empregadores se intrometerem demais nas vidas pessoais de seus funcionários.

Seguradoras também

Além da BP, empresas seguradoras como UnitedHealth Group, Humana, Cigna e Highmark também criaram programas para integrar os aparelhos de vestir em suas políticas.

O objetivo é fazer com que as pessoas se interessem mais em cuidar de si mesmas.

Os consumidores utilizam o aparelho e os dados da atividade são enviados a um sistema on-line para que possam ser verificados e, assim, o prêmio ser concedido à pessoa.

“O que os empregadores querem é que a pessoa tenha um papel ativo no cuidado de sua saúde”, disse Dee Brock, que incorporou os aparelhos de vestir aos programas de bem-estar da Highmark, que tem sede em Pittsburgh, EUA.

Bandeira da privacidade

A adoção de aparelhos de vestir por empresas e seguradoras está aumentando depois que o gasto com incentivos de bem-estar corporativo dobraram para US$ 594 por funcionário desde 2009, segundo um estudo da Fidelity Investments e da National Business Group on Health.

A tecnologia está criando novas formas de os programas de bem-estar medirem se os funcionários estão fazendo progressos, de forma semelhante a uma tendência do setor de seguro automotivo.

Neste caso, os motoristas que colocam um sensor de monitoramento em seu veículo podem pagar tarifas mais baixas baseadas em como estão dirigindo e não em seu histórico de motorista.

Contudo, essas medidas também permitem que os empregadores e seguradoras reúnam mais dados a respeito das vidas das pessoas, levantando questionamentos dos defensores da privacidade. Os aparelhos de vestir estão avançando além do monitoramento de passos, com sensores que monitoram o ritmo cardíaco, o nível de glicose, a temperatura corporal e outras funções.

“O foco em saúde preventiva à custa da privacidade é perigoso”, disse Pam Dixon, fundadora do Fórum Mundial de Privacidade, em San Diego, que lida com assuntos de privacidade na saúde.

“No momento esses aparelhos estão monitorando os passos por dia e seu alcance não é tão grande, mas dentro de algum tempo eles serão bastante sofisticados”.

Quando incentivos financeiros estão envolvidos, segundo Dixon, isso pressiona os funcionários e restringe a dúvida sobre se eles devem ou não participar.

A coleta de dados de saúde também abre a porta para que as pessoas eventualmente paguem mais ou menos com base nessas informações, disse ela.

As empresas e seguradoras disseram que protegem a privacidade das pessoas que usam aparelhos de vestir e que cumprem as leis federais que proíbem que os empregadores vejam certas informações de saúde a respeito de seus funcionários sem seu consentimento.

Os programas com aparelhos de vestir são voluntários e frequentemente administrados por vendedoras terceirizadas como a StayWell, que trabalha com a BP.

Só o conjunto

Como parte do programa da BP, os funcionários que usam um FitBit para registrar 1 milhão de passos ganham metade dos 1.000 pontos necessários a cada ano para se qualificarem para copagamentos mais baixos e despesas de saúde deduzíveis e reembolsáveis.

A BP comprou 25.000 aparelhos FitBit para funcionários norte-americanos, inclusive para os das refinarias e das sondas de perfuração.

Os pontos podem ser ganhos também por meio de um exame físico anual, uma aula de saúde on-line e outras iniciativas.

“Nós acreditamos que o aparelho é fácil de usar, torna as pessoas conscientes a respeito do pouco que estão caminhando e ajuda a torná-las mais ativas”, disse Karl Dalal, diretor de benefícios de saúde e bem-estar da BP.

“A BP não vê nenhum desses dados, só o conjunto”.

O mercado para aparelhos de vestir é pequeno – cerca de 2 por cento do total de 1 bilhão de smartphones vendidos globalmente no ano passado -, por isso criar interesse nos empregadores e nas empresas de seguro é fundamental para o crescimento.

Cerca de 22 milhões de aparelhos de monitoramento do condicionamento físico serão vendidos neste ano e 66 milhões em 2018, com cerca de um terço vindo de programas de bem-estar corporativo, segundo a Parks Associates.

Os incentivos que um empregador ou empresa de seguro pode oferecer são uma forma de fazer com que as pessoas continuem usando o dispositivo em vez de jogá-lo em uma gaveta quando ele deixa de ser novidade.

Mirando as empresas

Segundo a nova Lei de Saúde dos EUA, as empresas podem gastar até 30 por cento dos prêmios anuais de seguro em recompensas ao comportamento saudável.

As empresas de tecnologia estão registrando isso.

A Apple, que tem um novo software de monitoramento de saúde chamado HealthKit, que será lançado neste ano, e que estaria desenvolvendo seu próprio aparelho de vestir, conversou com a UnitedHealth, maior seguradora dos EUA, e com a Humana a respeito de suas iniciativas de saúde, disseram executivos das provedoras de seguro.

As empresas não forneceram detalhes das conversas. A Apple preferiu não comentar.

Dados valiosos

Apesar de algum entusiasmo inicial muitas empresas estão aguardando para ver se o uso de aparelhos de vestir não é só uma moda fitness.

Nenhuma grande pesquisa foi feita para mostrar se o uso desses aparelhos leva a custos mais baixos com saúde e muitos empregadores querem saber “se isso é algo passageiro ou algo que tem o poder de permanecer e pode ter resultados comprovados”, disse Eric Herbek, que gerencia o envolvimento digital para a Cigna.

Kristi Slagle, cujo marido emagreceu por meio do programa da BP, não está preocupada com a questão de privacidade ligada aos aparelhos.

Ela disse que o programa torna o sistema mais justo porque aqueles que são mais saudáveis atualmente acabam sustentando custos mais altos por causa dos que não são.

“Eu gosto do fato de a BP estar tornando as pessoas mais responsáveis”, disse ela.


Essa notícia foi publicada no site Exame.com, em 21/08/2014

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