Perdemos nossa capacidade de conversar

Data 03/11/2010

*Por Carlos Nepomuceno

"Só existe diálogo honesto quando os dois lados estão dispostos a mudar, a partir da interação com o outro" – Carlos Nepomuceno. 
 

O maior problema humano hoje é a nossa incapacidade da conversa. 
Ainda mais com pessoas que não fazem parte da nossa tribo, geralmente no trabalho, em grupos mais abertos. 
O outro nos assusta e precisamos rotulá-lo para nos sentirmos bem, confortáveis e – por que não – superiores. 
Perdemos a capacidade de ouvir e falar com sinceridade e disposição para crescer juntos. 
Quem não conversa, opta sempre por se fechar em guetos para viver catarticamente na reafirmação de si mesmo.

Motivos mil, consequência milhões! ;(

Todo o esforço hoje, a meu ver, é resgatar essa arte perdida da conversa aberta, do diálogo honesto, em alguma caverna perdida, atrás dos aparelhos dos livros, dos rádios, da tevê e agora da Internet e celulares. 
Nada disso garante diálogo, apenas informação. 
Ainda mais em profissões que lidam diretamente com pessoas. 
Aí se inclui: comunicadores, inovadores, gestores de todos os tipos, informadores, etc… 
Assim, acredito que a melhoria das relações está baseado na capacidade do diálogo. E a capacidade do diálogo na melhoria da qualidade da relação. 
Evitar a cristalização de guetos, dogmas, tribos, grupos, igrejas, etc. 
Quando colocamos o outro em um quadro, é o primeiro passo para nos afastarmos da pessoa e nos ensurdecer. 
Sim, não é fácil, mas devemos nos concentrar nessa meta. 
Estou assumindo pessoalmente, com toda dificuldade, esse esforço nas minhas aulas, palestras, consultorias, vida pessoal, etc… 
Isso, a meu ver, resume uma atitude 2.0, conseguir, de novo, fazer debates honestos. 
Quando não dialogamos, tendemos a pasteurizar o outro.

É preciso ouvir para saber:

  • como o outro de fato pensa?
  • o que há em comum e incomum entre você e o pensamento do outro?
  • como ele chegou aquelas conclusões? Amadureceu muito, ou discutiu pouco? Está disposto a rever ou se manter nela?
  • qual é, de fato, a disposição dos dois para o diálogo?
  • qual é o grau de sua atenção e a do outro quando cada um conversa?
  • ambos estão respeitando o outro, sem sarcasmo, ironias, desqualificações, adjetivações?

(Meu filho mais velho, Jonas, me chamou a atenção de que quando se tem problemas no diálogo, começam a surgir os adjetivos. Concordo com ele.)

  • como me sinto em relação ao discurso do outro?
  • como expresso esse meu sentimento?
  • o tempo e o local do diálogo estão ajudando ou atrapalhando?
  • ter outras pessoas asistindo ou participando, está ajudando ou atrapalhando?
  • a plataforma usada (e-mail, twitter, telefone, pessoal) está ajudando ou atrapalhando?

Problemas recorrentes, que observo que encontra-se ao se conversar de ambos os lados:

  • não querer escutar;
  • só querer falar;
  • não querer falar;
  • vontade de doutrinar;
  • vontade de ser doutrinado;
  • indisposição para mudar.

Acredito que o diálogo é um jogo em que as duas partes devem estar dispostas a superar estes obstáculos, ambas com interesse de mudar, a partir da troca. 
Se alguém se diz fechado para a mudança, não há diálogo, mas apenas monólogo e tentativa de doutrinação. 
Quase perda de tempo, muito chato, rua sem saída. 
Vale o dito: “quando um não quer dois não brigam“, que pode ser adaptado para “quando um não quer dois não dialogam”. Quando dois não dialogam, por consequência, brigam. 
(Árabes x Judeus, PSDB x PT, esquerda x direita, etc..são exemplos nessa direção.) 
Temos que resgatar a arte do diálogo perdido em alguma caverna lá do passado….se quisermos começar a pensar em fazer projetos inclusivos na Internet, pois a rede é um espaço aberto ao diálogo dos desconhecidos. 
Esse é o principal desafio que uma mídia interativa – aberta ao diálogo – traz para a sociedade.

E é o diálogo a principal ferramenta de um agente indutor de mudança.

Concordas?

Jornalista e consultor especializado em Redes Humanas, com especialização no mundo Web, desde 1995, Carlos Nepomuceno é doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense. nepo.com.br