Pessoas que mudaram de carreira após os 35 mostram como executar o plano B

Data 20/05/2013

Ana era psicanalista e virou publicitária, Marina fazia pesquisas de genética e hoje é designer floral, enquanto Esteban deixou a vida de executivo de multinacional para ser professor universitário e consultor.

Esses profissionais mudaram completamente o rumo da carreira depois dos 35 anos, quando estavam bem encaminhados do ponto de vista pessoal e profissional.

"A noção do que é carreira mudou: antes era apenas uma sucessão de empregos, hoje são as experiências acumuladas ao longo da vida", diz Tania Casado, coordenadora de um programa de orientação profissional da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP.

O alargamento do período produtivo faz com que os profissionais tenham mais oportunidades de atuar em setores diferentes e tempo para fazer a mudança.

O brasileiro está trabalhando por mais tempo: dados do Ministério da Previdência Social indicam que a idade média de aposentadoria por tempo de contribuição cresceu de 49,77 anos em 1998 para 54,01 anos em 2012, levando em conta homens e mulheres de áreas urbanas e rurais.

Para fazer essa transição, é essencial traçar um plano, ampliar a rede de contatos e economizar, já que a travessia pode levar anos e incluir perdas financeiras, ao menos no curto prazo.

No caso do engenheiro Esteban Cálcena, 42, foram cinco anos entre a decisão de deixar o cargo de gerente de marketing de uma empresa de telefonia e a demissão em si. O tempo foi necessário para delinear planos, estudar e guardar dinheiro.

"Quando saí da empresa, tinha reserva para sustentar a minha família por três anos", diz Cálcena, que passou dois anos e meio cursando mestrado na USP e hoje é professor universitário e consultor de gestão de pessoas.

Ele afirma que decidiu fazer a troca por motivos familiares. "Eu mal via os meus dois filhos. Saía de casa antes que eles acordassem e voltava depois que eles tinham ido dormir."

Os fatores que costumam impulsionar o reposicionamento de carreira podem ser externos (circunstâncias financeiras, extinção de profissões) ou internos (que partem do indivíduo).

A professora da USP diz que são três os principais motivos internos que levam a essas mudanças.

"No primeiro, a pessoa percebe que aquilo que faz não tem a ver com ela. No segundo, ela não consegue balancear a vida pessoal e a profissional. O terceiro é a profissão não apresentar mais desafios", conta.

 Por essa lógica, foram fatores externos que motivaram Ana Cenamo, 43, a deixar de atuar como psicanalista. "Eu gostava do trabalho e o fazia bem, mas ganhava muito pouco dinheiro."

Ela trabalhou com clínica por 13 anos. Aos 35, tornou-se redatora publicitária, usando conhecimentos que havia adquirido em ações filantrópicas, como trabalhos de marketing para o Graac (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer).

"Tivemos que elaborar manuais, captar recursos e ir atrás de parceiros", conta.

O marido da ex-psicanalista a incentivou na transição. "Ele me disse: 'Já que você tem talento para a publicidade, trabalhe e ganhe dinheiro com isso.'"
Com uma trajetória consolidada na publicidade, foi convidada para ser diretora-geral do banco de imagens iStockphoto no Brasil, seu atual cargo.

Especialistas dizem que, assim como Cenamo, pessoas interessadas em mudar de carreira devem obter experiência na nova área por meio de trabalhos complementares ou filantrópicos.

"É necessário criar uma rede de relacionamentos fora do círculo atual e buscar outras referências. Isso se faz atuando na área", diz Cálcena.

Marina Strambi, 55, não decidiu mudar de área para aumentar o salário, mas hoje ela fatura mais fazendo arranjos florais do que na carreira anterior, de pesquisadora de genética.

"Sempre gostei de fazer pesquisas, mas não estava feliz dando aulas", diz.

Havia também uma questão pessoal: dar mais atenção à família "A pesquisa seria feita de qualquer maneira, mesmo que não por mim. No caso dos meus filhos, eu era a responsável por eles."

Strambi parou de trabalhar aos 41 anos e, para não ficar ociosa, tornou-se voluntária na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) e fez um curso de arranjos florais.

Ela começou a oferecer o produto gratuitamente a vizinhas e depois passou a receber pedidos, recebendo por isso.

Hoje, ela aceita encomendas desses produtos para casamentos, festas e eventos institucionais, além de fazer a manutenção semanal de flores em clínicas, residências e restaurantes.

AMOR À CAUSA

Para Irene Azevedo, professora de liderança da BBS Business School, ao escolher a nova profissão é preciso avaliar "suas paixões".

"Pense no que motiva você, qual é o seu forte e quais são seus valores", diz a professora.

Azevedo fala por experiência própria. Aos 46 anos, ela deixou uma multinacional de tecnologia na qual trabalhou por mais de duas décadas para procurar fazer algo diferente.
"Quando saí, só tinha certeza do que eu não queria", conta.

Para se inserir em um novo mercado, ela analisou a própria carreira e se deu conta de que sempre trabalhou no desenvolvimento de profissionais: ela havia liderado equipes em diferentes áreas da companhia.

Decidiu elaborar um currículo que ressaltava essa experiência, para procurar trabalho na área de recursos humanos. Atuou como "headhunter", trabalhou formalmente na área de RH de empresas e foi desenvolvendo habilidades relacionadas a essas áreas.

Hoje, além de dar aulas, atua como "coach" e consultora de carreiras.

 A professora afirma que é necessário fazer um plano que considere todos os aspectos da mudança. "Leve em conta a experiência que poderá aproveitar, pense nos aspectos financeiros, obtenha mais qualificação se for o caso e estabeleça um prazo para migrar."

O profissional deve comparar a sua formação com aquela que é requerida no setor no qual deseja ingressar. Nessa hora, é melhor se ater ao necessário, sem gastar tempo e dinheiro com cursos variados.

QUANTO RISO

De acordo com especialistas, antes de fazer a mudança, é preciso discutir o assunto com familiares. O apoio deles é importante no processo, especialmente se a nova carreira for um tanto inusitada.

Fernando Carril, 41, por exemplo, teve de contar aos parentes que iria deixar o cargo de gerente-geral de mobilidade de uma empresa de internet para seguir a carreira de palhaço.

"Ninguém incentiva alguém a ser palhaço, mas, quando viu que eu estava decidido, minha família me apoiou."

Ele começou a estudar o uso desses personagens como forma de expressão, "assim como algumas pessoas estudam música ou pintura". "Gostei e resolvi me dedicar a isso em tempo integral."

A decisão teve de ser acompanhada por novos hábitos -para economizar, ele passou a usar mais transporte público e comer mais em casa, por exemplo.
"Ganho dez vezes menos do que antes e não tenho carro desde 2010, mas ganho em áreas não financeiras."

 

*Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 16/05/2013

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