Pressão e falta de autoconhecimento desestimulam os jovens

Data 17/08/2011

Os jovens são menos comprometidos com o trabalho e a razão para tal não está na falta de objetivos ou nas incertezas que rondam o início de carreira. O descomprometimento é resultado do despreparo para trabalhar sob pressão. A conclusão é de um estudo conduzido pela empresa de pesquisas GfK com cerca de 30 mil trabalhadores em 29 países, que mostrou uma segmentação bem clara entre jovens e profissionais mais maduros: enquanto o pessoal entre 18 e 29 anos mostra-se mais “desiludido”, o quadro acima de 60 anos é mais “resignado”. A situação se repete no Brasil, onde o índice de comprometimento entre os mais jovens ficou em 20%, abaixo de países como Portugal, Alemanha, Reino Unido e Bélgica.

O especialista em desenvolvimento de jovens talentos e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Renato Guimarães Ferreira vê nos corredores da faculdade o que mostram os números. Ele chama atenção para o fato de que os jovens têm menos recursos para lidar com a pressão justamente por conta da pouca idade. “Eles têm uma conciliação de agenda muito difícil, muitas vezes pressionados por trabalho e faculdade”. Outro aspecto tem a ver com o contexto social, uma espécie de ditadura do sucesso. “Existe a pressão pelo conceito de felicidade, o que deixa as pessoas infelizes por não estarem felizes. É uma coisa muito curiosa.”

Recém formado pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Caio Buti, 22 anos, sente na pele essa pressão, o que, segundo ele, acaba influenciado nas decisões profissionais. O rapaz conta que era comum perceber entre os colegas de faculdade uma “neurose” pelo primeiro estágio ou pela contratação. Para o jovem, talvez a melhor alternativa seja, na verdade, “dar uma pausa” e olhar para os lados antes de tomar uma decisão. “Depois de 15 anos você corre o risco de não saber porque está fazendo aquilo”.

Falta autoconhecimento

O estudo da GfK indica que, no Brasil, apenas 20% dos jovens entre 18 e 29 anos são “altamente comprometidos” com seus empregos, enquanto nas faixas etárias mais altas (de 50 a 59 anos, por exemplo) esse índice é de 37%. Para a diretora de Recursos Humanos e Responsabilidade Social da seguradora Cardif Brasil, Cynthia Jobim, a baixa porcentagem de jovens engajados está diretamente ligada ao que as empresas têm a oferecer para atender às expectativas deles. “O que eu vejo mais presente nesses jovems é uma necessidade muito grande de desenvolvimento. E eles vão se manter na empresa enquanto a corporação entregar aquilo que eles anseiam”.

Para a executiva, há importantes mudanças no conceito de “vestir a camisa” quando comparamos os profissionais que chegam agora ao mercado de trabalho com os veteranos. “O jovem troca de emprego mais facilmente. O ´vestir a camisa` para ele não é deixar de questionar”, afirma. “É diferente daquela ideia de estabilidade do emprego, de ficar vários anos na mesma organização.”

Sofia Esteves, presidente do Grupo DMRH, ao qual pertence a Cia de Talentos – que realiza o ranking das Empresas dos Sonhos dos Jovens –, acrescenta mais um fator a essa equação: a falta de autoconhecimento. “Esse jovem se conhece muito pouco. Não sabe exatamente o que quer e o leque de escolhas tem aumentado muito”, pondera Sofia. Na análise da executiva, a notável gama de cursos universitários e de profissões, aliada à atual mobilidade entre carreiras, pode significar um revés. “Essa variedade imensa de escolhas, para um jovem que não se conhece, dificulta a decisão”, diz.

Papel das empresas

Para professor Renato Guimarães Ferreira as empresas podem interferir nesse cenário, evitando ruídos na comunicação com os jovens. Uma forma de fazer isso, segundo ele, é estabelecer uma aliança sólida com as escolas, o que garante às organizações uma presença maior durante a formação dos futuros profissionais. Para isso, avalia, é fundamental que as companhias assumam o papel de ajudar os jovens, dando-lhes o tempo necessário para que eles estudem e experimentem. “Isso para mim é sinônimo de uma empresa cidadã”, diz. “Elas reclamam da formação do aluno que está saindo da faculdade, mas também não aliviam [a carga sobre o jovem], permitindo que o aluno estude mais.”

A diretora de Recursos Humanos da Cardif destaca que muitos jovens têm uma carga de tarefas extracurriculares tão pesada – inglês, tênis, espanhol etc –, que ele já chega com a agenda lotada. “A questão é que, antes, ele tinha a possibilidade de remanejar essa agenda e, talvez, no mundo do trabalho ele não possa fazer isso.” A diretora pondera que as empresas precisam aprender a lidar com as diferenças de comportamento e a equacionar as expectativas dos jovens com o que elas têm a oferecer. “As ferramentas que a gente usava com as gerações anteriores não são as mesmas que temos que usar agora.”

Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 09/08/2011.