Profissionais trabalham em esteira para manter a saúde

Data 29/05/2013

A americana Cindy Mayhak, 40, decidiu há três anos tirar a esteira ergométrica de casa e levá-la para a sede da empresa em que trabalha, na cidade de Vancouver (em Washington, nos EUA). Desde então, ela caminha por três horas todos os dias enquanto trabalha e fica o resto do expediente em pé.

Mayhak, que atua como contadora, diz que perdeu 22,7 quilos desde que adotou a estratégia e se sente mais concentrada.

A prática de trabalhar de cima de uma esteira está se disseminando pelos Estados Unidos, acompanhada de uma série de pesquisas que respaldam a nova moda. Não se trata, entretanto, de o profissional correr vigorosamente como se estivesse em uma academia, mas, sim, de caminhar lentamente.

Um estudo feito na Clínica Mayo, dos Estados Unidos, recomenda regular o equipamento a uma velocidade entre 1,6 km/h e 3,2 km/h. De acordo com os pesquisadores, andar na velocidade considerada ideal, de 2,7 km/h, permite queimar entre entre 100 e 150 calorias por hora. Isso ajuda os funcionários a perderem peso.

"Descobrimos que os obesos ficam sentados ou deitados por 2,5 horas a mais do que os indivíduos magros", explica o americano Gabriel Koepp, gerente do programa de soluções de obesidade da Clínica Mayo. Mas a questão não é apenas o peso dos funcionários. Existe a preocupação com o fato de os profissionais passarem muito tempo sentados, o que aumenta a incidência de doenças crônicas.

"Mesmo que a pessoa se exercite fora do trabalho, se ela ficar sentada por longos períodos, vai correr mais riscos de desenvolver doenças cardiovasculares e diabetes", afirma o médico Travis Saunders, doutorando da faculdade de ciências médicas da Universidade de Ottawa (Canadá). Saunders pesquisa, em adultos e crianças, a relação entre o tempo que se fica parado e o aparecimento de doenças crônicas.

 O professor universitário americano James Endres Howell, 42, adotou a prática de trabalhar em cima de uma esteira para reverter um quadro que, segundo ele, o levaria ao diabetes. "Meus níveis de triglicérides [indicador do risco de doenças cardiovasculares] e de colesterol estavam aumentando. Era só uma questão de tempo até que eu 'comesse' meu caminho rumo ao diabetes", conta Howell, que é diretor de graduação da Universidade Estadual da Pensilvânia.

"A recomendação veio do meu médico. Eu já tinha mudado a minha dieta radicalmente e resolvi começar a andar enquanto trabalho."

Nas últimas sete semanas, todas as vezes que atendeu um telefonema, respondeu a um e-mail ou leu uma pesquisa, ele estava também caminhando a 1,9 km/h. O pesquisador da Clínica Mayo diz que trabalhar assim não reduz a produção. "Em todos os casos, a produtividade permaneceu a mesma ou aumentou entre os funcionários que participaram dos nossos estudos", diz.

Mas ele afirma que é comum, por exemplo, que as pessoas reclamem da dificuldade de escrever usando papel e caneta, por causa do movimento. "Quando tenho de anotar um recado, eu digito no computador ou escrevo com uma letra toda rabiscada mesmo", admite a contadora Mayhak.

O professor da Pensilvânia diz que também é mais complicado falar ao telefone. "Eu tomo cuidado para não parecer ofegante."

Andar e pensar

O neurofisiologista Ricardo Arida, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), confirma que atividades físicas regulares melhoram o desempenho no trabalho. "Pessoas que praticam exercício apresentam melhora da cognição e da memória, o que leva a um rendimento maior", explica.

De acordo com ele, o exercício favorece a formação de novos neurônios e a capacidade que eles têm de criar conexões. Além disso, com a atividade, o corpo lida melhor com o estresse.

O americano Steve Bordley, 57, é uma das pessoas por trás da onda de trabalhar caminhando sem sair do lugar. Ele é dono da TrekDesk, que fabrica uma mesa ajustável que pode ser colocada sobre "máquina de andar".

A ideia do negócio veio de uma necessidade pessoal: na década de 1990, ele sofreu um acidente e não pôde mais praticar exercícios. Por isso, acabou engordando.
Depois de recuperado, colocou uma prateleira em cima de sua esteira para trabalhar enquanto andava.

"Perdi 11 kg apenas no primeiro mês, sem fazer dieta", conta. O empreendedor afirma que a prática mantém suas pernas, costas e pulmões mais fortes.

Ele resolveu abandonar o ramo imobiliário e se dedicar a desenvolver o produto. Segundo Bordley, cerca de 50 milhões de pessoas têm uma esteira nos Estados Unidos.
"A maioria deixa a sua esquecida na garagem. Resolvi criar uma mesa que pudesse ser usada com elas."

Esses aparelhos podem ser comprados no Brasil pela internet. Mas quem não estiver disposto a desembolsar cerca de US$ 500 (R$ 1.000) pelo acessório pode tentar fazer algumas alterações no cotidiano para não trabalhar tanto tempo sentado.

Cintia Cercato, endocrinologista e diretora da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) diz que as pessoas devem tentar caminhar por cinco minutos a cada meia hora de trabalho na cadeira.

"Isso ameniza o risco de desenvolver doenças cardiovasculares", diz.

Dose a dose

Entretanto, é preciso evitar exageros. "O exercício moderado é sempre mais adequado", afirma Nei Botter Montenegro, ortopedista do Hospital Israelita Albert Einstein. O profissional não deve se sentir esgotado após a jornada de trabalho.

Além de recomendar que se evite os excessos, Montenegro também afirma que algumas pessoas podem sentir desequilíbrio ao trabalhar na esteira digitando, por não poder balançar os braços enquanto caminham.

Indivíduos obesos, fisicamente despreparados ou que já têm lesão articular devem ter cuidado redobrado: é preciso começar em intervalos curtos, para evitar um desgaste maior da cartilagem. É indicado fazer pausas e alongamentos. "Se exagerar na dose ou se a posição estiver desconfortável, a pessoa poderá apresentar inflamação da parte muscular."


*Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 26/05/2013

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