Programas de trainee são mais concorridos do que vestibular

Data 04/12/2012

Garantir uma vaga nas universidades mais conceituadas do País é a grande preocupação dos jovens recém-saídos do ensino médio. Ao final do curso, no entanto, eles estão se deparando com um desafio ainda maior: o processo seletivo para programas de trainees e de estágio. Em muitos casos, a disputa é mais concorrida do que os vestibulares para as melhores faculdades brasileiras.

O Programa de Estágio da Volkswagen do Brasil para 2013 bateu recorde de procura, com 28.173 inscrições para 70 vagas – uma relação de 400 candidatos por vaga – número sete vezes superior ao vestibular para o curso de engenharia civil da USP – o mais concorrido da Fuvest (Fundação Universitária de Vestibular) em 2012, que registrou 52 candidatos disputando uma vaga. Mais de 500 estudantes também se inscreveram no Accenture Campus Challenge 2012, programa de trainee da Accenture – empresa global de consultoria de gestão, serviços de tecnologia e outsourcing – na disputa por uma única vaga na companhia. A relação de candidatos por vaga foi quase dez vezes superior à apresentada pelo curso de engenharia civil na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), cujo índice foi de 52,27.

Lucas Moraes, 21, estudante de propaganda e marketing de Campinas, tirou o ano para participar de processos seletivos de grandes empresas, entre eles, o da Accenture, no qual ficou entre os três candidatos aprovados para a fase final. “O processo da Accenture é bastante inovador porque visa a prática. Em uma das atividades, realizamos um teste on-line que simulava como se estivéssemos alocados em um cliente e tivéssemos que resolver problemas do cotidiano”, relembra.

Participar dos processos de trainee – são oito no total – tem sido cansativo para o estudante. Com facilidade para se comunicar, os testes presenciais são os mais tranquilos. “Como atuo com vendas e estudo propaganda e marketing, acabo tendo facilidade no contato pessoal”, afirma. A tensão fica por conta dos testes teóricos. “Participei de um no qual tínhamos dez segundos para responder às questões, com um cronômetro ao lado indicando o tempo que restava. É bastante desgastante”, afirma.

Para Fernando Jucá, sócio da Atingire, consultoria de treinamento e desenvolvimento, o cenário tão concorrido tem estreita relação com a mudança cultural sofrida pelas empresas e pelos jovens. “As organizações têm uma consciência cada vez maior da relevância em buscar e desenvolver os melhores profissionais desde cedo, já que trazer esses talentos do mercado implica maior custo e, algumas vezes, simplesmente não dá certo devido à incompatibilidade de valores entre as partes”, destaca.

No caso dos jovens, afirma, trata-se de uma questão de pegar atalhos. “Essa é uma geração que não quer esperar anos para construir uma carreira de sucesso. Por isso, uma solução que ela tem encontrado é já começar pelas melhores organizações e em postos valorizados, como são os de trainees”, diz. Moraes concorda e conta que foi exatamente isso que o levou a se inscrever nos processos de seleção. “O cargo de trainee possibilita um crescimento mais rápido dentro da companhia. Sou da geração y, corro atrás dos meus objetivos e tenho pressa”, afirma.

Bom para todo mundo

O sócio da Atingire acredita que essa realidade marcada pela alta competitividade traz efeitos positivos, como uma maior valorização do cargo. “Quanto mais difícil é entrar em uma empresa, mais o jovem valoriza o posto que conseguiu, ostentando o crachá como um troféu”, conta.

No entanto, ele chama atenção para a criação de expectativas irreais – por parte da organização e dos jovens. “Há o risco de as promessas da empresa excederem a realidade, com a intenção de tornar a vaga mais atraente do que ela de fato é, causando frustração no jovem após alguns meses na organização”, defende. “Por outro lado, muitas vezes, as empresas acreditam que estão contratando super talentos e ficam surpresas quando percebem que eles não estão prontos, e que estão ali justamente para serem lapidados”, completa.

Andréa de Paula, sócia-diretora da consultoria Ascend RH, credita o crescimento da procura por programas de trainees ao maior número de pessoas com acesso à universidade nos últimos anos e vê esse cenário concorrido de forma bastante positiva. “Para as empresas, a possibilidade de escolher é excelente porque aumentam as chances de encontrar candidatos que se enquadrem no perfil que ela busca. Além disso, com um número maior de candidatos, é preciso sofisticar e profissionalizar o processo de seleção”, diz.

No caso dos jovens, participar de processos concorridos ajuda a perceber o nível de preparo em relação a outros candidatos de formação semelhante. “Se aprovado, ele consegue uma excelente oportunidade de carreira. Se não, o processo o ajuda a se aprimorar para a participação em outros programas”, finaliza.


*Essa notícia foi publicada no site Canal RH, em 26/11/2012