“Quando” é o lugar para ser feliz?

Data 06/10/2014

*Por Marcos Vono


É muito comum ouvirmos falar sobre pessoas que sofreram ou sofrem porque perderam o emprego. O que raramente ouvimos falar é de pessoas que sofrem justamente do contrário, padecem por não conseguirem terminar a relação profissional com a empresa para a qual trabalham.

Isso acontece por muitos motivos. Há casos de pessoas que precisam muito do atual emprego por questões financeiras e não querem correr riscos. Não querem pedir demissão por acharem que perderão as verbas rescisórias, a multa sobre o fundo de garantia, entre outros motivos.

Existem, ainda, aqueles que possuem as famosas “algemas de ouro profissionais”. Recebem incentivos de longo prazo para permanecerem na empresa atual e sentem que, com a saída, perderão muito dinheiro.

Há outros casos em que a pessoa não tem empregabilidade e, por isso, se acomoda na atual relação profissional. Mesmo infeliz com a situação atual, acredita que o que tem é melhor do que nada. Há, ainda, aqueles que possuem baixa autoestima e, intimamente, acreditam que não conseguiriam nada melhor. Por fim, existem aqueles casos em que a pessoa se acostuma com um trabalho, mas não sente prazer com o que faz. Não tem aquele sentimento de realização.

Isso é muito triste. São pessoas que provavelmente têm uma visão de trabalho como castigo. Muito disso é inconsciente e vem da nossa formação cultural em relação ao trabalho.

No mundo atual, com o crescimento da competitividade ou com a “ditadura” da performance a qualquer preço, sentir- se feliz e realizado profissionalmente tem se tornado um desafio enorme. O pior é que não há como escapar. Não vamos entrar aqui na discussão do que venha a ser felicidade. Vamos aceitar o sentido geral. Não vamos entrar também no estereótipo de que alguém que fale em realização profissional ou felicidade no trabalho está falando de algo menos concreto.

Falando concretamente, o tema que discorro neste artigo tem se tornado um caso de saúde pública em países que tratam com seriedade o bem-estar do trabalhador. Tenho pensado e conversado com alguns amigos sobre o mal que isso tem feito para a sociedade de forma geral. O trabalho e seu grande mundo ocupam um espaço enorme em nossas vidas. Espaço este que está crescendo cada vez mais. O trabalho parece que deixa de ser meio para se tornar fim.

O que tenho visto por aí é que as pessoas dependem cada vez mais do seu trabalho para terem uma identidade. O pior é que não basta apenas ter um trabalho e ser capaz de viver dele. Temos que ter um emprego de grife, ou seja, sentimos necessidade de trabalhar em uma empresa que nos torne especiais apenas por trabalharmos lá. Além disso, temos que ter um cargo especial, importante. Só assim nos sentimos valorizados.

Há muitas pessoas que estão infelizes na empresa em que trabalham. Basta olhar ou ouvir atentamente. Pessoas nesta situação estão sofrendo e muito. São horas intermináveis em um trabalho que parece não fazer sentido. Participam de reuniões, apresentam projetos, lideram equipes, porém, quase sempre, sem nenhum vínculo com a empresa. Essas pessoas sempre pensam em uma maneira de não mais pertencer àquela realidade. Porém, continuam na mesma situação. Quando esta situação dura muito, o final é quase sempre muito ruim para empresa e empregado.

Caso você esteja em uma situação como esta, mesmo sabendo que a solução não será fácil – a menos que você tenha grandes chances de empregabilidade – a sugestão é enfrentar o problema até encontrar uma solução. Viver assim não vale à pena.

O título deste artigo foi colocado para servir de provocação. Para dar a ideia de tempo e espaço.

A ideia é gerar reflexão, ainda que pequena, para que pessoas e empresas olhem para este problema de frente. A vida é uma só e passa rápido demais para a jogarmos fora. Sempre há alternativas para quem perdeu o interesse pelo atual emprego. Porém, quanto mais o tempo passar em uma situação como esta, piores serão os resultados para ambas as partes.

Não gosto de dar conselhos, mas neste caso, de tanto ver situações como estas acontecerem nas organizações e de presenciar o mal que elas fazem, me permito aconselhá-los, caso vocês estejam nesta situação de buscar novos caminhos para sair dela o mais rápido possível. Vale buscar coaching, terapia, orientação profissional ou qualquer tipo de ajuda que lhe possa tirar desta armadilha.

Como diria o poeta, que seja eterno enquanto dure.

 

*Marcos Vono é Especialista em Recursos Humanos e Carreiras. Atuou como Diretor de RH do Grupo IBMEC durante oito anos, função que também cumpriu em diversas empresas como Banco ABN Real, Quaker e Unilever.

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