RH 2.0

Data 15/09/2010

LG: Como você vê a difusão das redes sociais no meio corporativo?

Carlos Nepomuceno: Primeiro temos que definir o que são redes sociais. Existe uma confusão muito grande hoje sobre esse conceito, por que está se restringindo a ideia para redes sociais eletrônicas, que estão ligadas a determinadas ferramentas como Orkut, Twitter etc. Na verdade, o que está acontecendo é uma mudança global na sociedade, em função de termos uma nova ferramenta de troca de informação e de comunicação, que é a Internet.

A Internet tem feito com que o cidadão passe a ter uma quantidade de informações maior e, principalmente, tem possibilitado o acesso a determinadas informações de fontes que ele não tinha antes. Ou seja, agora ele passou a ser informado sobre tudo na sociedade pelos amigos, conhecidos e também de pessoas que ele não conhece, através de trocas nos grupos, pesquisas de mercado, comentários em sites de compras etc. A partir desse novo modelo, ele passa a perceber que aquele produto tem ou não problemas e ele conhece a realidade das empresas: se ela está trabalhando no Brasil ou fora, se está respeitando o meio ambiente e uma série de outras questões.

Esse ambiente informacional que entramos agora faz com tenhamos uma relação diferente com toda a sociedade, inclusive, com o ambiente corporativo.  Algo semelhante ocorreu no surgimento do livro impresso, onde existia um poder muito bem organizado na sociedade: a Igreja e a monarquia. A estrutura de informação baseava-se na conversa dos padres na Igreja e no livro manuscrito, que era completamente cerceado e fechado, por que as pessoas não tinham acesso a ele. Quando surgiu o livro impresso, houve uma explosão da circulação de ideias.

A mudança que estamos vivendo hoje é similar a essa de 550 anos atrás, ocorrida com o surgimento do livro impresso. Após essa inovação, aconteceram muitos fatos importantes que mudaram completamente a sociedade, como a revisão da monarquia, da própria igreja, do modelo político e econômico, além de uma reestruturação, passando do modo agrário-feudal para industrialização-capitalista.

Estamos começando uma nova ruptura da civilização, onde o modelo mental de como pensamos a sociedade está mudando em função das trocas de ideias que estão acontecendo. Estamos construindo uma nova sociedade na qual as corporações terão que se reinventar.

Então, como lidamos com as redes sociais? Se reinventando, enquanto organização, para que no futuro possa estar competitiva nesse novo mundo que está surgindo.

LG: Como os departamentos de RH das empresas podem aproveitar esses canais?

Carlos Nepomuceno: Há uma mudança em curso da forma como entendemos empresa. As pessoas estão querendo adaptar as redes sociais às empresas. Eu diria que o movimento que vai acontecer, será inverso. As empresas vão ter que se adaptar à nova forma de pensar da sociedade, a partir da utilização dessas redes. Ou seja, vão acontecer mudanças, inclusive no RH.

Existe uma tendência em alterar a relação empresa-empregado. Ele tende a ser um acionista da empresa e não será mais visto como um competidor do empresário. Ele terá que ser incorporado para vestir a camisa e para que a empresa possa aproveitar as ideias dos funcionários. Por outro lado, as empresas vão trabalhar em rede com seus fornecedores e acionistas. Será uma mudança tão repentina e radical que temos que imaginar isso de uma forma mais global.

Diante disso, os profissionais de RH terão que tentar compreender esse novo quadro para se adaptar. Hoje eles estão tentando encaixar as redes sociais no modelo corporativo atual, mas o certo é pensar no novo modelo de corporação que vai surgir, modelo de RH 2.0, e como vamos nos relacionar com os empregados nesse novo cenário, onde, muitas vezes, eles não estarão trabalhando dentro da empresa e serão funcionários, consumidores, acionistas e formadores de opinião, ao mesmo tempo.

LG: Hoje o maior uso das redes sociais pelo RH talvez seja como ferramenta de recrutamento e seleção. O que você acha disso e como o RH deve gerenciar esse processo seletivo virtual?

Carlos Nepomuceno: As pessoas precisam dar informações na internet para receber em troca qualidade de informação. Diante disso, a forma de seleção usada para esse modelo de empresa que está acabando, cria alguns problemas éticos. No entanto, a tendência é que as pessoas agreguem valor cada vez mais pelo que elas geram, sendo que hoje elas são recrutadas muito mais por protótipos e preconceitos.

Acredito que com as redes sociais isso tende a mudar, pois será um mundo de inovação rápida, onde a empresa precisará de pessoas com atitudes filosóficas, que possam recriar o tempo todo. Sendo assim, haverá uma remodelagem das contratações, buscando pessoas bem diferentes do padrão de hoje. Isso já acontece aqui e ali, mas acredito ser uma grande tendência pro futuro.

LG: Você acredita que todas as redes devem ser liberadas para todos os colaboradores em uma empresa?

Carlos Nepomuceno: Existem pesquisas que dizem que as pessoas perdem tempo nas redes sociais. Eu acredito que se as pessoas estão trabalhando em uma empresa onde elas são avaliadas pelos minutos que trabalham e não pelo valor que agregam à companhia, não vai ser liberar ou proibir as redes sociais que fará diferença.

O funcionário pode estar na frente do computador pensando na namorada, fazendo um trabalho de faculdade, trocando emails com amigos ou simplesmente jogando paciência. Ou estar no telefone fingindo que está falando com um cliente, mas batendo papo. Então a questão não é abrir ou não para redes sociais, mas sim a forma de medição do trabalho dos funcionários feita pelas corporações e isso independe de redes sociais.

Se o RH consegue criar medidas de valor das pessoas na frente do computador, cada vez vai ficar mais ridícula a discussão sobre o que ele está ou não acessando. Porque ele pode não acessar o Twitter, por exemplo, mas estar navegando em sites da internet. Fazendo uma comparação simples: é a mesma coisa de alguém estar com febre e tirar-se o termômetro para fingir que ele não está mais com febre.

A questão é: nós temos hoje capacidade de medir o valor das pessoas para as empresas, ou não? Por que o certo é que as pessoas valham cada vez menos pela quantidade de horas que trabalham e cada vez mais pela quantidade produzida. Hoje é preciso motivar o trabalho intelectual.

LG: O que você acha das redes sociais internas, criadas pelas empresas e restrita à intranet?

Carlos Nepomuceno: Na verdade, isso é a incorporação do novo modelo informacional, baseado na troca. Chamo a atenção para o fato de que isso vai trazer mudanças radicais na empresa. Está sendo mudada a forma de controle da informação da empresa e quando isso é modificado, a estrutura e os processos das empresas também são alterados.

Ou seja, o modelo vertical, com chefes, diretores e acionistas, funcionou por algum tempo. Mas quando a empresa implanta um Orkut na intranet da corporação, por exemplo, você oferece uma ferramenta mais rápida e dinâmica, que altera também essa estrutura vertical.

A tendência de se criar empresas colaborativas é uma forma de se resolver problemas de inovação e de geração de valor, de sobrevivência da empresa. Isso é certo. O problema é que elas estão fazendo isso da mesma forma que implantaram o computador ou o Word. As empresas precisam entender que redes sociais são mais que uma ferramenta. Elas mudam a forma de controle da informação, os processos e, conseqüente, as empresas. É preciso, então, pensar que esse processo é uma gestão de mudança macro e não micro, como muitas empresas estão pensando.

LG: Como “educar” os colaboradores de uma empresa para o bom uso dessas ferramentas?

Carlos Nepomuceno: Acredito que as empresas é que precisam se reeducar. O que está acontecendo é que a corporação quer usar o modelo de informação e comunicação pré-internet e quer que tudo que esteja acontecendo hoje, na pós-internet, simplesmente não aconteça e que não impacte a corporação. Alguns gestores não querem modificar a corporação e querem que os funcionários esqueçam, enquanto estão na empresa, que existe esse novo mundo da internet, de colaboração. É como brincar que dentro da empresa não existe Orkut, Twitter e Facebook.

Os gestores precisam avaliar dois pontos:

Essa mudança informacional que aconteceu há 550 anos, vai se repetir? Se sim, como minha empresa vai se adaptar?

A partir daí, como vou me relacionar com meus funcionários, fornecedores e clientes?

Os gestores querem manter a empresa da forma que está e usar todas essas novidades que estão surgindo, com a cabeça antiga, e acreditam que com isso irão resolver seu problema. Só que isso é inviável por que, historicamente, não foi isso que aconteceu há 550 anos e não é isso que vai acontecer agora.

Acredito que os gestores precisam estudar para ter condições de encontrarem o melhor caminho, o mais viável. Mas o que vemos hoje é que eles não têm essas informações e, com isso, estão indo por um caminho inviável, enquanto a concorrência está fazendo da forma viável…

LG: Para as empresas que ainda não usam essas ferramentas, mas querem adotá-las em sua gestão interna, por onde você aconselha que elas comecem?

Carlos Nepomuceno: Um passo importante é perceber que há uma grande mudança. O segundo passo é entender esse processo que está acontecendo. Isso tudo tem que ser feito pela cúpula da empresa, que precisa incorporar essa mudança informacional e inseri-la na estratégia da empresa. Feito isso, é preciso estudar como implantar.

Eu sugiro, em meu livro, uma criação de protótipo: escolha um setor de pessoas proativas e dinâmicas e teste o novo modelo. A partir daí aprimore o sistemas e aplique em toda a empresa. Mas é preciso estar preparado para sair de uma empresa totalmente verticalizada e passar para uma horizontalizada em rede, que vai trabalhar com uma dinâmica diferente, compatível com o mercado que está surgindo nesse novo ambiente. Ou seja, a velocidade interna da organização terá que ser compatível com a velocidade da internet.

RH 2.0Jornalista e consultor especializado em Redes Humanas, com especialização no mundo Web, desde 1995, Carlos Nepomuceno é doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense. É ainda pesquisador dos efeitos da Ruptura 2.0 e procura ajudar a sociedade a lidar melhor com essa passagem. Atualmente, presta consultoria para grandes instituições, como Petrobras, Dataprev, Prodesp, e leciona aulas na UFRJ, Senac/RJ e Instituto Infnet. É ainda co-autor do primeiro livro sobre Web 2.0 no Brasil: Conhecimento em Rede.