RH empreendedor e estratégico

Data 24/08/2011

A evolução não está no consenso, e sim no conflito de ideias. Esse embate garante a democracia e faz valer o dito “duas cabeças pensam melhor que uma”. A abordagem permeou os debates no painel “A parceria entre o CEO e o RH: agora ou nunca!”, dentro do 37º Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas (CONARH). O tom foi o de deixar a retranca e partir para o ataque. Ou seja, para “contribuir com os resultados e ficar bem na foto com o CEO, o RH tem que lutar na linha de frente”, como avaliou o consultor Cesar Souza, um dos convidados do debate. Para isso, segundo a professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG) e consultora Betânia Tanure, é preciso coragem para dizer não. “É preciso coragem para discordar de quem está no poder, coragem de fazer o que deve ser feito”, defendeu.

Números citados pela professora indicam a necessidade de os gestores de RH serem proativos. Segundo ela, apenas 11% de 88 presidentes de grandes organizações no Brasil ouvidos em seu levantamento se disseram satisfeitos com a performance de seus diretores de Recursos Humanos – frente a 91% que não têm do que reclamar dos diretores de finanças e CFOs. Na avaliação de Betânia, a baixa aprovação se deve à falta de clareza por parte da presidência acerca de como lidar com seu líder de RH. “Esse presidente não sabe como ele deve orientar seu diretor de RH, como deve cobrar resultados dele, como ele deve fazer um coaching para os recursos humanos”, afirma.

É preciso correr riscos

Para João Dornellas, diretor de Recursos Humanos da Nestlé, coragem é algo “fundamental para o RH”. O executivo entende que o cotidiano é pautado por tomadas de decisões que nem sempre contam com uma base suficiente de informações para sustentá-las, mas que mesmo assim é preciso seguir em frente, correr riscos. “Tenho certeza que os CEOs esperam isso dos seus RHs”, garantiu. Já o consultor e autor Mario Sergio Cortella questionou a função do RH de cuidar do patrimônio humano, como diz o lugar comum. Para ele, muitas vezes, o que se vê, de fato, é muito discurso para pouca ação. “Eu teria cuidado com esse cuidado”, provocou. “Há um cinismo muito grande em boa parte das organizações.” Para sustentar seu argumento, Cortella recorreu à crise de 2008 que, segundo ele, teve como primeira e principal consequência, uma onda de cortes nos quadros de funcionários. “O que eu mais ouvia nas empresas era: ‘Nosso maior ativo são as pessoas’”, contou o autor. “Quando a crise veio, o primeiro lugar onde o facão passou foi exatamente nesse ‘principal ativo’”. Silêncio na mesa, riso na plateia.

Competência e confiança

Cesar Souza quebrou o gelo lembrando a importância da competência e da confiança na relação entre a autoridade máxima de uma organização e a área de gestão de pessoas. Partidário do sepultamento da ideia de que assuntos específicos são de responsabilidade apenas de seus respectivos departamentos, o consultor mostrou que até mesmo o escoamento da produção de uma empresa passa pelos recursos humanos. “Cliente não é um problema só das áreas de vendas, comercial e marketing”, afirmou. “É responsabilidade de todos – do porteiro ao presidente, passando pelo RH, sem dúvida.”

Segundo ele, essa é a postura de um RH empreendedor, conceito que precisa ser ampliado. E para isso, os gestores devem ver seus CEOs como clientes em vez de chefes. “Assim como um cliente, o CEO tem expectativas, sonhos, tem compromisso com os resultados que ele precisa”, comparou. “Por isso eu acho que a nossa obrigação como RH é sempre entender quais são realmente essas expectativas e quais são os resultados que precisam ser atingidos, para a gente tentar contribuir com eles.”

Um dos exemplos dessa situação veio de Dornellas, que explicou o programa "Nestlé até Você", por meio do qual dez mil donas de casa de comunidades carentes foram capacitadas e treinadas pelo RH da companhia para se tornarem vendedoras de porta em porta. O resultado foi um aumento na receita da companhia e na renda das famílias (de R$ 800 até R$ 1.000 por mês). “Essa é uma forma de o RH participar da estratégia de crescimento da empresa”, avaliou o executivo da Nestlé. Souza arrematou afirmando que, ao perceber que o RH está preocupado com os objetivos gerais da empresa, a consequência é o CEO passar a enxergá-lo com outros olhos.

Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 18/08/2011.