Rumo ao interior

Data 12/03/2013

Migrar para a “cidade grande” já foi sinônimo de emprego e garantia de renda. As metrópoles continuam concentrando a maior parte da riqueza do País, mas isso já não é exclusividade delas. A interiorização da economia é um fenômeno recente, mas também é crescente e, ao que tudo indica, irreversível. Junto com o desenvolvimento econômico, o interior encara o problema de escassez de mão de obra qualificada. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 12 municípios não pertencentes às regiões metropolitanas de seus estados se destacaram por gerarem, individualmente, mais do que 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Estão na lista cidades como Betim (MG), que respondeu por 0,8% do PIB; São José dos Campos (SP) com 0,7%; e Canoas (RS) com 0,5%.

Os números parecem pequenos, mas a soma das participações destas cidades contribuiu com mais de 9,3% da renda gerada no País. Exemplo desse crescimento do interior, Rio Verde, no estado de Goiás, mereceu atenção especial no levantamento do IBGE. Isso devido ao fato de que o município – grande produtor, de soja, milho e sorgo, além da criação de aves, suínos e bovinos – foi o que obteve o maior valor adicionado bruto da atividade agropecuária no País: R$ 676,2 milhões em 2009, último dado disponível.

Os números descortinam um problema que parecia exclusivo dos grandes centros: a falta de mão de obra qualificada. O crescimento econômico eleva o número de vagas, mas não há profissionais qualificados para preenchê-las. “Há uma migração muito grande de pessoas de várias partes do país para Rio Verde”, conta o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas local, Fernando Ramos Jayme. “Só que há 15 anos a cidade vivia exclusivamente do agronegócio. Hoje a região mudou muito. Você não vai conseguir emprego aqui se não for qualificado.” O porta-voz emenda dizendo que o problema, tanto na indústria quanto no comércio, vai desde a mão de obra “mais braçal”, como define, passa pelo nível técnico e chega até os cargos mais altos. “Quem não aprimora suas competências, infelizmente, vai acabar trabalhando no corte de cana”, diz.

A falta de qualificação atinge até funções sem grandes tecnicidades. “Nas lojas, a dificuldade maior está em contratar vendedores, até por ser o quadro maior”, diz a coordenadora executiva da Fundação CDL de Uberlândia, no Triangulo Mineiro, Bânia Vieira dos Santos Poli. A Fundação, ligada à Câmara de Dirigentes Lojistas, é responsável pelo processo de recrutamento e seleção para empresas da região. Por esse motivo, é um bom termômetro do problema. Bânia conta que, há cerca de dois anos, o tempo médio para preencher uma vaga não passava de uma semana. Hoje, chega a um mês.

Erro na matriz educacional

Embora atinja diferentes níveis hierárquicos nas empresas, a escassez de mão de obra é maior nas áreas técnicas de alguns setores – como óleo gás, construção civil e tecnologia. É o que conta o diretor da regional Campinas do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), José Nunes Filho. “Faltam técnicos em todas as áreas”, afirma Nunes Filho, que acrescenta o processo de desindustrialização do Brasil como um agravante. “Para essa indústria voltar a crescer necessitará de mão de obra qualificada”, afirma. Ele cita o exemplo do setor de eletroeletrônica, que sem profissionais devidamente preparados não consegue competir com mercados mais agressivos, como a China. A solução, segundo Nunes Filho, está na revisão da matriz educacional brasileira. “Precisamos de mais escolas técnicas, faculdades de formação tecnológica”, julga.

Mas os desafios não estão apenas na seara da formação educacional. As chamadas competências comportamentais têm pesado cada vez mais na balança. Entre as queixas estão falta de engajamento, incapacidade de assimilar a cultura da empresa e ausência de proatividade. Ao lado dessa deficiência, aparece outra que permeia todas as regiões do país: a falta de educação básica. “É muito comum ver pessoas se formando no nível superior com dificuldades de redação ou sem conhecimento das regras básicas de aritmética”, observa o professor Tiago Aguirre, presidente do Grupo de Estudos e Negócios dos Setores Empresariais (Gênese), sediado em Campinas.

Reação das empresas

Ainda em Campinas, é o setor imobiliário que têm mostrado um caminho criativo para enfrentar o problema. O viés, claro, é o da educação, explica o presidente da Rede Imobiliária Campinas, Antônio de Lucca Junior. A associação concentra 29 imobiliárias, 800 profissionais e tem uma carteira de dois mil imóveis. O trabalho junto aos associados envolve qualificação e reciclagem profissional, pensando não só nos avanços tecnológicos como também em questões específicas, como a maneira correta de fotografar um imóvel que irá à venda ou locação. “O módulo de fotografia, por exemplo, dá dicas como não fotografar o boxe do banheiro com uma toalha pendurada, ou uma mesa cheia de coisas, ou evitar que o cachorro apareça na foto”, explica Lucca Junior. Na parte de recapacitação, os corretores aprendem novos conceitos, como o uso das redes sociais como ferramenta de trabalho.

 


*Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 05/03/2013

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