Saiba como lidar com a pressão das metas e o que fazer para alcançá-las

Data 09/02/2010

 

Quando um profissional vê as metas do trabalho de forma negativa, há algo de errado ou com ele ou com a empresa, afirmam especialistas. Isso porque as metas, se bem aplicadas, devem estimular o trabalho, e não causar efeito contrário. Para ajudar quem ainda não conseguiu enxergar o lado bom das metas ou sofre com a pressão deste regime de trabalho, veja dicas de como lidar com elas.

Apesar de o profissional ter grande influência nos resultados de seu trabalho, atingir ou não as metas não é só responsabilidade dele. Cabe também ao gestor estabelecer objetivos atingíveis, diz o especialista Marcelo Ortega, consultor na área de vendas e liderança e autor de vários livros sobre o tema, como o “Sucesso em vendas”, da editora Saraiva.

“O que funcionários e líderes precisam entender é que não adianta o chefe fingir que a meta é atingível e o funcionário fingir que entendeu”, afirma. Para ele, quando um funcionário recebe uma meta que não acredita ser alcançável, ele deve conversar com o superior e entender qual é seu plano para chegar até ela.

A especialista em psicologia do trabalho e coordenadora de gestão de carreiras da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap), Janete Teixeira Dias, complementa que se a empresa coloca uma meta como desafio, ela precisa ter um parâmetro aceitável para isso. Ela diz que os chefes devem ser realistas e levar em conta, inclusive, mudanças no cenário externo da empresa, como crises de mercado.

O trabalho em equipe é outro fator visto como positivo pelos especialistas. Isso porque, quando os funcionários trabalham isolados, a tendência é surgir um clima de concorrência interna, o que coloca sob ainda mais pressão aquele que não consegue atingir a meta.

"Os líderes precisam chamar os funcionários para construir a meta juntos", diz Ortega, e não simplesmente ditar números e prazos e depois cobrar por eles. “Nem todo mundo tem o mesmo ritmo, as pessoas são diferentes, não tem melhor ou pior”

O consultor em gestão de pessoas e autor do livro “Eu sou o obstáculo”, Roberto Recinella, argumenta que as metas funcionam para todo mundo, o que muda é a forma como elas são apresentadas e encaradas por cada um. “Um dos papéis do chefe é saber qual meta deve ser dada para quem.”

Perda de memória

A cobrança exagerada por resultados pode se transformar em assédio moral ou causar doenças aos funcionários, como síndrome do pânico ou depressão. Há casos ainda em que funcionários empurram vendas para os mesmo clientes só para atingir as metas, dizem os especialistas.

A bancária Tatiana (nome fictício), de 44 anos, entrou em depressão e sofre de falta de memória por conta da cobrança pelas metas. Ela trabalhou por 12 anos em uma agência de um grande banco em São Paulo, onde chegou a trabalhar como gerente. Ela hoje está afastada por conta da doença.

Ela diz que sempre foi uma boa funcionária, mas perdeu o foco ao não ter apoio quando teve dificuldades. “Todo o meu histórico na agência foi esquecido. Eu era citada como mau exemplo em reuniões”, diz. Segundo ela, colegas tinham medo de falar com ela para não perder o emprego e chegaram a falar que ela era velha demais para o cargo.

“Chegou um momento que eu não tinha concentração para nada, só chorava. Cheguei a me perder nas ruas do meu próprio bairro”, diz. Hoje, ela faz tratamento para retomar a memória e espera não voltar a trabalhar na mesma agência. “Eu amo o que faço, mas quero trabalhar em um local onde ninguém me conheça.”

O presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Luiz Cláudio Marcolino, afirma que a luta contra as metas abusivas é constante na entidade. De acordo com ele, muitos bancários enfrentem o mesmo problema de Tatiana. O sindicato orienta os bancários sobre a questão, afirma.

Organização

Mesmo quem não sofre com as cobranças precisa ter organização para atingir as metas, afirma o consultor Ortega. Segundo ele, é importante ter objetivos diários. Isso porque, se um vendedor precisa atingir R$ 1 milhão em um mês, ele deve vender R$ 250 mil por semana.

“As pessoas costumam deixar para depois e, quando chega na última semana, não dá mais para atingir o objetivo”, diz Ortega. Para ele, é importante que elas coloquem na prática as mudanças necessárias para reverter o cenário, sem ficar apenas dando justificativas de ter dado errado.

“O ideal é procurar fazer algo melhor todo santo dia, priorizar os pequenos avanços e ter autoconfiança”, diz. Ortega afirma que é preciso estabelecer data, prazos e como atingir as metas.

Perfil

As metas, entretanto, não devem ser a única forma de avaliação das empresas. Para a especialista em sociologia do trabalho da Academia Brasileira de Educação, Cultura e Empregabilidade (Abece), Natália Pacheco, quando o rendimento de um funcionário é medido pelas metas, não são incluídas as contribuições intelectuais que ele traz à empresa, como novas ideias e projetos.

“São exemplos difíceis de mensurar em números, mas importantes”. Outro exemplo são clientes conquistados.

Pedir demissão

Cada um, porém, deve analisar os motivos que o prende na empresa. Afinal, os especialistas garantem que não vale a pela se esforçar para cumprir metas quando a pessoa não vê justificativa para o esforço.

Antes de pedir demissão, entretanto, Natália sugere que o profissional avalie porque está em um emprego que não satisfaz e o que o prende ao trabalho. “Respondidas essas perguntas, qualquer pessoa é capaz de decidir se deve ou não se manter no emprego”, diz.

Ortega é mais direto e sugere: “Se não está feliz, demita seu chefe. Se necessário, vá trabalhar na praia vendendo sorvete. O importante é gostar do que faz.”

Doença

A professora de psicologia da Faculdade da Academia Brasileira de Educação e Cultura (Fabec), Cláudia Venâncio de Lima, diz que a meta por si só não causa doenças, mas o estresse gerado por ela pode resultar na síndrome do pânico.

Os sintomas são, segundo ela, boca seca, tremores, taquicardia, falta de ar, mal-estar na barriga ou no peito e tonturas, acompanhados de sensações de que algo trágico, como a morte, pode acontecer. Cláudia diz que os profissionais com esses sintomas devem procurar ajuda médica.

Ela acrescenta que, diante da lesão sofrida, é possível entrar na Justiça contra a empresa. Nesse caso, o empregado pode pedir a extinção do contrato, indenização em virtude do dano e até tratamento médico, se for o caso.

 

Essa matéria foi publicada no portal Administradores, em fevereiro de 2010.