Sala de aula ganha contornos corporativos

Data 15/01/2013

A empresa catarinense de tecnologia da informação HBSis passa por um momento de redesenho de suas estratégias visando alcançar dois grandes objetivos até 2016: figurar entre as 50 melhores organizações para se trabalhar no setor de TI e quadriplicar o atual faturamento. Entre ações estabelecidas para se alcançar as metas está a educação corporativa, prática crescente no mercado brasileiro desde os anos 90 – mais precisamente em 1992, quando foi a criada a primeira instituição do gênero, a Academia Accor.

A Universidade HBSis, cujas atividades começaram em agosto, surgiu com a missão de “alinhar conhecimentos específicos às estratégias da empresa por meio do aprendizado”, segundo define Rodrigo Demo, coordenador da área na empresa. A estratégia coloca a organização em um grupo que enxerga na criação desses programas o caminho para solucionar problemas ligados a gestão, seja de pessoas, de processos, de produtividade ou de crescimento.

De acordo com a professora da Universidade de São Paulo (USP), Marisa Eboli, pesquisadora da área de educação corporativa há 14 anos, estima-se que exista cerca 600 empresas, entre nacionais e multinacionais, que adotem o sistema hoje no Brasil. O número foi levantado ao longo das edições da pesquisa nacional Práticas e Resultados da Educação Corporativa, cuja mais recente é de 2009. A indústria aparece em primeiro lugar, seguida do setor de serviços e do mercado financeiro. Embora a equipe da professora ainda esteja em processo de apuração de dados mais atuais, a especialista adianta que os setores devem aparecer ainda mais diversificados nos resultados de 2012. “Mesmo sem ter os novos dados, temos percebido que houve uma diversificação [dos ramos de atividade das empresas que mantêm essas universidades].” O que, segundo afirma, comprovaria a crescente consciência por parte de todos os setores de que a mão de obra qualificada é “fundamental para a competitividade”.

Aprimoramento de competências

No entanto, ainda que apareça como uma forte aliada na luta contra o apagão de mão de obra, a universidade corporativa carrega uma missão que vai além da atual crise de qualificação. É o que mostra o exemplo da Universidade Corporativa Banco do Brasil (UniBB), cuja implantação se baseou fundamentalmente na necessidade de desenvolver competências profissionais necessárias aos objetivos estratégicos da instituição. “É uma forma de promover a melhoria contínua do desempenho no trabalho e de fortalecer crenças e valores”, explica o gerente-executivo da UniBB, Hugo Pena Brandão.

Esse é o principal fator que diferencia as universidades corporativas dos demais processos de treinamento e desenvolvimento, conforme esclarece Marisa Eboli, também autora do livro Educação Corporativa no Brasil – Mitos e Verdades (Gente, 2004). “O conceito central é ter os programas concebidos a partir do mapeamento e alinhamento das competências”, informa a pesquisadora. A partir dele desenrolam-se outros princípios que caracterizam o modelo – como a possibilidade do aprendizado a distância e a extensão das atividades, além dos colaboradores, também para clientes e parceiros. “Às vezes você tem competências de uma organização que dependem de um público externo”, exemplifica Marisa. “Como clientes e distribuidores do seu produto.”

Corpo docente

Apesar do nome, essas universidades não são reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC). O termo surgiu nos Estados Unidos, onde a prática teve início, no final dos anos de 1950, com uma iniciativa da multinacional General Electric (GE). A similaridade, no entanto, vai além da nomenclatura, já que, mesmo no âmbito empresarial, esses programas terminam por incorporar a preocupação de reproduzir os três pilares que sustentam os modelos acadêmicos: a geração do conhecimento por meio da pesquisa, a assimilação do conteúdo pelo ensino e a prestação de serviços. “Porém, fazendo tudo isso dentro do negócio da empresa”, compara a professora. Diante disso, não é um equívoco chamar de corpo docente o grupo de profissionais encarregados de repassar conhecimento aos “alunos”. Em geral, executivos seniores da própria organização. “Mas você pode ter também os chamados provedores, trazidos por meio de parcerias com instituições das áreas”, complementa Marisa. “Por exemplo, em negócios pode ser a FIA [Fundação Instituto de Administração], FGV [Fundação Getulio Vargas], a Fundação Dom Cabral. E na indústria muitas vezes aparecem como parceiros o Sesi [Serviço Social da Indústria] e o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial].”


*Essa notícia foi publicada nos site Canal RH, em 9/1/2013