Senado discute possibilidade de cotas para mulheres nas áreas executivas

Data 16/10/2012

O debate foi aberto em escala mundial após a Comissária de Justiça da União Europeia, Viviane Reeding, afirmar que a instituição tem analisado a possibilidade de instituir cotas para executivas nos conselhos das organizações dos países que compõem o bloco. No Brasil, a discussão ganha fôlego com o projeto de lei 112/2010 do Senado, que estabelece um percentual mínimo de 40% de mulheres nessas posições em empresas públicas e nas sociedades de economia mista a partir de 2022. Para esquentar ainda mais os debates, um levantamento da GMI Ratings – feito com 4.300 companhias de 45 países – mostra o Brasil com uma das taxas mais baixas nesse quesito: 4,5% de mulheres ocupando cargos no mais alto colegiado das corporações.

Tentando se posicionar nessa teia de números, nas propostas e nos projetos de lei, o mundo corporativo se polariza: de um lado há opiniões favoráveis à adoção de cotas no Brasil como forma de atingir equidade entre eles e elas no topo da pirâmide empresarial; de outro, estão os que veem nesse sistema um risco de o tiro sair pela culatra e o resultado ser uma distância ainda maior entre os gêneros no mercado de trabalho.

Mas será que se trata apenas de uma questão de ser a favor ou contra? Para o professor de contabilidade e finanças da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Di Miceli, autor do livro Governança corporativa: teoria e prática no Brasil e no mundo (Elsevier, 2010), o mero choque entre opiniões contrárias e favoráveis condena a discussão à superficialidade. “É preciso trazer fatos”, alerta, destacando a necessidade de se analisar dados sobre empresas e trabalhos publicados sobre o tema em todo o mundo, para não se ficar no ‘achismo’. A favor do que ele prefere chamar de uma “regulação por parte do governo”, Di Miceli acredita que ações afirmativas são necessárias, tendo em vista “o sistema perverso” que existe hoje, “que prejudica as mulheres no sentido de elas não conseguirem alcançar determinados cargos. Por isso alguma coisa externa tem de ser feita para que isso mude”.

Prós e contras

A professora do programa de pós-graduação em energia da Universidade de São Paulo (USP), Virginia Parente, opta pela prudência ao abordar o tema. Ex-conselheira da Eletrobras e atualmente membro dos conselhos da Eletrobras-Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco) e da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), Virginia afirma “não ter opinião formada sobre a necessidade de cotas nesse contexto dos conselhos administrativos, especificamente”, e diz enxergar prós e contras no sistema. “Como professora universitária, tenho um olhar sobre as cotas em relação à universidade”, explica. “Acho que há um aspecto de justiça, mas também tem um efeito colateral, porque pode deixar a impressão preconceituosa de que foram necessárias as cotas porque o indivíduo não é tão ‘competente’ quanto deveria.”

O risco à meritocracia também é levantado pela presidente do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Sandra Guerra. “Você pode criar a possibilidade de isolamento dessas mulheres por parte dos demais membros dos conselhos”, enxerga Sandra. “Por entenderem a medida como falta de mérito na ocupação da cadeira do conselho”. Em sua visão, a presença feminina calcada no cumprimento de uma lei pode suscitar questionamentos sobre a real capacidade das profissionais selecionadas.

Já para o presidente da PricewaterhouseCoopers Brasil – empresa que trabalha na prestação de auditoria e de serviços de assessoria tributária e empresarial –, Fernando Alves, números como os da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que mostram que cerca de 60% dos talentos disponíveis no mercado de trabalho mundial hoje são mulheres, bastam para conscientizar os gestores de que deixá-las de fora pode ser um risco. “Não se trata apenas de equidade e justiça – que deveriam alimentar uma cultura de diversidade”, analisa Alves. “É, sobretudo, uma questão ligada ao imperativo do negócio.”

Para o empresário, na medida em que caminhamos para uma “economia cada vez mais voltada para os serviços”, o êxito aguarda as companhias que conseguirem atrair, reter e desenvolver os melhores profissionais. “E se metade do pool de talentos é feminina, eu deixo de ter qualquer vantagem competitiva, caso não tenha um conjunto de ações afirmativas que viabilize a condição diferenciada que elas precisam para poderem seguir carreira numa organização.”


*Essa notícia foi publicada no site Canal RH

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