Só longa jornada não explica morte de jovens no trabalho, dizem especialistas

Data 23/12/2013

Neste ano, ganharam repercussão mundial ao menos dois casos de jovens na faixa dos 20 anos de idade que morreram após trabalhar por várias horas seguidas, o mais recente foi o da redatora publicitária Mita Duran, 24, que morreu no fim de semana após dizer no Twitter que estava trabalhando há 30 horas, mas "aguentando firme".

Ela já havia falado na internet sobre sua rotina intensa de trabalho. "Quanto mais tempo você passa no trabalho, mais pensa em trazer sua cama para cá. Preferencialmente para perto do ventilador", disse ela em outubro.

Um post na rede social Path atribuído ao pai da jovem afirmava que ela havia tido um colapso após trabalhar por longas jornadas, "acima do limite", por três dias.

Para especialistas consultados pela Folha, é difícil que mortes como a de Duran tenham sido causadas apenas pelo excesso de trabalho. "Não é de se esperar que 30 horas de trabalho burocrático possam levar alguém à morte", afirma Luiz Carlos Morrone, diretor científico do departamento de medicina do trabalho da Associação Paulista de Medicina.

De acordo com ele, os efeitos do estresse e das longas jornadas de trabalho se manifestam ao longo do tempo, deteriorando o estado de saúde do profissional no longo prazo, de forma crônica, o que pode abreviar sua vida.

"No passado, nós tínhamos casos de jornadas de trabalho de 12 horas por dia para mulheres e crianças, algo que foi considerado desumano e maléfico à condição de saúde", diz. "Naquela época, por esse desgaste ser muito grande, não se vivia tanto quanto hoje."

José Roberto Leite, coordenador da unidade de medicina comportamental da Unifesp, diz que provavelmente esses jovens tinham "doenças de base" preexistentes que causaram a morte.

"Ela [Duran] podia já ter algum problema cardiológico. Com o estresse, há uma carga de adrenalina muito grande, que aumenta a pressão arterial e a frequência cardíaca, o que pode causar a morte", diz.

No caso do alemão Moritz Erhardt, 21, um estagiário do Bank of America Merrill Lynch em Londres que morreu após ter trabalhado sem parar por 72 horas, a causa mais provável foi a epilepsia –de acordo com a mídia inglesa, ele sofreu uma convulsão no trabalho, mas não se pode ter certeza de que ela foi causada por fadiga ou estresse.

De qualquer forma, Leite diz que esse tipo de rotina provoca graves problemas de saúde, especialmente cardíacos ou de perda de imunidade a doenças. "[Alguém que trabalha por muito tempo sobre estresse] ou morre de problema cardíaco ou por doenças oportunistas", diz.

 


*Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 18/12/2013

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