Sua carreira tem fundamento?

Data 20/07/2011

 

* Por Silvio Celestino

Em geral, as pessoas imaginam que a carreira profissional é uma estrutura que a empresa irá fornecer. Uma estrutura formada por cargos hierarquizados e uma regra clara: o profissional é responsável por chegar aos postos mais elevados, nos quais a empresa paga maiores salários. A realidade é muito diferente disso. As empresas basicamente são a execução de um plano de investimento que pode funcionar ou não. As estruturas físicas e de pessoas somente podem existir se o plano, especialmente o de vendas, funcionar. Se a empresa não vender, ficar com prejuízo ou sem lucro, então, todos estão comprometidos, não importa quão bem elaborado seja o plano de cargos e salários. Na verdade, as organizações estão em luta de vida ou morte por sua própria sobrevivência. Querer que elas sobrevivam e mantenham alguns cargos é pedir muito. Querer que sobrevivam, mantenham os cargos e, ainda, ofereçam uma estrutura de carreira de longo prazo independente das crises econômicas é pedir o impossível. Afinal, o que ocorreu com o plano de carreira de quem trabalhava no Lehman Brothers, que foi varrida do mapa na crise de 2008? E nas empresas que foram compradas por outros grupos no Brasil ou no exterior? Enfim, o profissional deve ser dono de sua própria carreira e ela deve estar baseada em dois fundamentos: realização pessoal e financeira.

Por realização pessoal, entenda algo muito maior do que simplesmente profissão. Um indivíduo deve saber qual o propósito de sua vida, o que deseja realizar para si e para o mundo. Somente a partir dessa razão é que podemos definir a carreira profissional. Portanto, a primeira pergunta a responder é: "Qual o seu propósito?" E se você ainda não criou o seu, continue, então, pesquisando: converse com pessoas e frequente lugares que lhe são inspiradores. Leia biografias. Comece pequeno e pense grande. A maioria está insatisfeita na empresa em que trabalha e estará assim em qualquer lugar pelo simples fato de não possuir um propósito. Nessa situação, todo lugar é inadequado para o desenvolvimento de sua carreira, não importa o quanto mude. Essa é uma das principais razões que encontramos no setor privado e no setor público pessoas que não fazem bem seu trabalho. São indivíduos sem um propósito, infelizes e que optaram por uma profissão antes de escolherem quem são.

Realização financeira significa que sua carreira é parte do seu plano financeiro de vida. E ele começa com seu entendimento de qual é o padrão de vida que deseja para si. Para defini-lo, você deve começar respondendo às seguintes perguntas: Qual a casa que desejo ter? Qual o carro? Quantas vezes por ano e para onde desejo viajar? Quais roupas quero ter? Pretendo me casar? Ter filhos? Quantos? Não importa qual o padrão e o que deseja para sua vida, a única coisa certa é: vai custar dinheiro. Portanto, se não tiver consciência de quanto custa a vida que deseja, jamais se sentirá realizado plenamente em sua carreira, por melhor profissional que seja.

Nossas escolas preparam os alunos para pensar e agir como empregados ou autônomos. Entretanto, certos padrões de vida são possíveis somente se o indivíduo for um empreendedor ou um investidor. E para ser esses dois últimos, é necessário uma educação que não se encontra em escolas: educação financeira.

A sua carreira profissional deve ser um equilíbrio entre esses dois fatores fundamentais: realização pessoal e financeira. Não há sentido em ter uma vida de privações somente para dizer que faz o que gosta. Adolescentes e crianças podem fazê-lo, pessoas maduras, não. Por outro lado, não adianta ser muito bem-sucedido financeiramente e ter uma vida que odeia, que não lhe preenche e o estressa. Não conheço nenhum problema que fique pior pelo fato da pessoa ter mais dinheiro. Entretanto, há esferas da vida que o dinheiro não acessa. Por isso, na minha experiência de coach, o segundo caso é o mais difícil de lidar. Afinal, quando todas as contas estão pagas, a pessoa pode olhar para si e responder se a vida está valendo a pena ou não. E quando a resposta é negativa, as ações exigem consciência em outras esferas da vida como: relacionamento, espiritualidade, maturidade e transcendência, isto é, sua capacidade de lidar com a própria morte e daqueles que lhe são relevantes. E essas são questões que o dinheiro sozinho não pode resolver.

Meu propósito é preparar líderes e fazê-los se interessar em ocupar posições relevantes nas empresas e no mundo. E todos nós somos líderes de nossa própria vida. Qual é o seu propósito mesmo?

Silvio Celestino é Coach de Executivos e foi VP do Chapter São Paulo da Federação Internacional de Coaches. Consultor Organizacional e Senior Partner da Alliance Coaching.