Tire a carreira da lama após escândalos na sua empresa

Data 18/07/2012

A algum tempo, a fraude bilionária no banco PanAmericano ocupou lugar de destaque em todos os meios de comunicação. Todos os diretores da instituição foram demitidos, e aí está o assunto desta reportagem: por trás de um escândalo corporativo, sempre há um ou mais profissionais praticando alguma atividade ilícita ou antiética.

O que você, um profissional honesto, faria se um esquema fraudulento fosse descoberto na empresa em que você trabalha? E se seu chefe estivesse envolvido? Será que isso respingaria em sua carreira? O mercado, infelizmente, não é um mundo perfeito, e qualquer um está sujeito a ter um currículo manchado, ainda que nada de errado tenha feito.

A executiva M.C. (que pediu para ter a identidade preservada) trabalhou como diretora durante um ano em uma prestadora de serviços de tecnologia de São Paulo que, além de atrasar o salário dos funcionários, não cumpria os contratos com os fornecedores. Ao sair da companhia, optou por não citar no currículo a experiência. Não conseguiu. "Durante a entrevista de emprego, o assunto vinha à tona, pois os recrutadores conheciam os problemas", diz ela. "Quando eu era confrontada, acabava confirmando a passagem pela companhia."

M.C. contava, então, suas atribuições e procurava deixar claro que não teve envolvimento com os atrasos de pagamento. "Não vale a pena mentir, porque um bom recrutador vai pesquisar seu histórico e descobrir o que você fazia", diz. De acordo com Ana Carla Moreira, especialista em mercado financeiro da Robert Half, empresa de recrutamento de São Paulo, muitos profissionais passam por situação semelhante durante uma entrevista de emprego.

Um caso notório, pela gravidade, é o de ex-funcionários do Banco Santos, que em 2004 sofreu uma intervenção do Banco Central e no ano seguinte teve sua falência decretada. O dono do banco, Edemar Cid Ferreira, e outros 18 diretores respondem a um processo por gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. Mas os superintendentes e gerentes do banco, sete anos depois, ainda carregam o peso de ter trabalhado numa instituição que faliu por má conduta de seus líderes.

"Todos os ex-executivos do banco que eu entrevistei hesitaram em incluir a experiência no currículo", diz Ana Carla. Em casos de repercussão pública, recomenda-se ao profissional ser transparente. "Se a pessoa não teve envolvimento na questão, não há problema algum em relatar a passagem pela companhia", explica Ana Carla. "Mas, se existir qualquer sinal de participação, o profissional dificilmente conseguirá uma recolocação no mercado", alerta. Se há um deslize ético, resta ao profissional avaliar como vai lidar, no futuro, com esse tipo de comportamento.

Rigor na seleção

Para Fernando Guedes, diretor da Asap, empresa de recrutamento de São Paulo, algumas situações chamam a atenção e são passíveis de investigação por parte dos recrutadores. A presença constante de passagens curtas em diferentes empresas, por exemplo, normalmente merece investigação. "Vou tentar descobrir se por trás daquela breve permanência existiu alguma prática ilícita, o que desqualificaria totalmente o currículo", diz Fernando. Não duvide da capacidade dos recrutadores e dos departamentos de recursos humanos das empresas. Eles vão conseguir levantar informações sobre seu histórico profissional. No mercado, as notícias correm.

Outra situação recorrente é o profissional ficar em dúvida na hora de falar sobre um chefe com má fama no mercado. É a outra parte da história: o profissional descobriu, ou desconfia que o líder tem um comportamento incorreto antes de qualquer fato grave vir à tona. A melhor coisa é cair fora do emprego ou do departamento o mais rápido possível. Qualquer que seja a decisão, o conselho é o mesmo: nunca fale mal do chefe.

Como as empresas de recrutamento vão buscar informações no próprio mercado, é comum surgirem comentários sobre a idoneidade ou até mesmo sobre o temperamento do líder. "Se isso acontecer, fale apenas de sua relação profissional", afirma Silvio Celestino, sócio da Alliance Coaching, de São Paulo. Evite fazer comentários depreciativos a respeito do chefe. "Muitos recrutadores entram em determinados assuntos só para testar a ética da pessoa", diz Silvio. Escândalos corporativos vão continuar ocorrendo.

Se você perceber que trabalha numa empresa fraudulenta ou numa área que desvia recursos, afaste-se do problema. Peça uma transferência ou, em último caso, arrume outro emprego. Se a bomba estourou e o mercado ficou sabendo, vá atrás de outra colocação e, durante as entrevistas, gaste um tempo mostrando o cenário e explicando que você não se envolveu. Se for verdade, os recrutadores saberão identificar.

Manual para limpar as manchas de sua carreira

Se você passou menos de um ano numa empresa problemática, nem é necessário colocar a experiência no currículo. Apenas mencione a passagem durante a entrevista. Caberá ao recrutador investigar o que ocorreu.

  • Se você está presenciando problemas de conduta em seu departamento, procure se informar antes de tomar qualquer decisão. Caso fique claro que a questão vai afetar sua trajetória profissional, o mais indicado é pedir desligamento da empresa.
     
  • Quando você foi o pivô de um deslize ético, saiba relatar o ocorrido. Mas não minta jamais. Explique o que aconteceu, mas deixe claro que foi um fato isolado e que você aprendeu com o erro. Você vai precisar de um discurso convincente para os entrevistadores.
     
  • Teve um chefe de má reputação? Nunca fale mal dele durante a entrevista. Não é preciso defendê-lo, mas evite comentários depreciativos. Fofoca é um dos maiores pecados cometidos em entrevistas. A regra é a mesma para colegas de trabalho. A etiqueta e a discrição são atitudes profissionais para lidar com o caso.
     
  • Se você trabalhou numa empresa que não é socialmente responsável, pode citá-la no currículo sem preocupação. A questão é corporativa, e não profissional. Se o recrutador tocar no assunto, diga com sinceridade o que acha da questão.
     
  • Não há problema em mencionar situações em que você discordava dos valores da empresa. Para o recrutador, é importante ouvi-lo, para avaliar se as razões são pertinentes ao perfil e à cultura da empresa que oferece a vaga.
     
  • Omitir uma demissão por justa causa é grave. Certamente o RH da empresa contratante terá acesso a essa informação no momento em que levantar as referências do candidato. Identifique a pessoa e o momento certo para mencionar esse fato e, principalmente, explicar em que circunstâncias ocorreu essa demissão.

 

Essa notícia foi publicada no site Exame.com, em 17/07/2012