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Uma segunda chance para quem precisa recomeçar

Data 15/04/2014

Entre tantos desafios que envolvem o sistema penitenciário brasileiro, a falta de estratégias para reinserção dos ex-detentos à sociedade, é uma delas. Mesmo já tendo pago sua dívida, a maior parte das pessoas que saem da prisão não conseguem retornar ao mercado de trabalho, pois sua ficha de antecedentes criminais dificulta a busca por uma nova oportunidade.

Realidade que incomodou Irit Czerny, Diretora da Lafort. A empresa paranaense do ramo têxtil promove há quatro anos a ressocialização de presidiárias ao mercado. A iniciativa foi reconhecida pelo Selo Começar de Novo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e já ajudou mais de 500 presas que passaram pela Penitenciária Estadual de Piraquara (PR).

Irit Czerny falou com exclusividade ao portal Huma sobre essa boa prática na área de Responsabilidade Social. Confira a entrevista!

LG lugar de gente: Como começou o projeto de reinserção de detentas na Lafort?

Irit Czerny: Inspirada nos programas de reinserção social promovido em Israel, nós começamos a estudar como a Lafort poderia desenvolver isso no Brasil. Então, fomos até a ala feminina da Penitenciária Estadual de Piraquara (PR) e conversamos com a diretora sobre a possibilidade de realizarmos algum tipo de trabalho que ensinasse uma nova profissão as detentas.

O presídio nos concedeu uma sala pequena, onde começamos a ensinar algumas atividades manuais para quatro presidiárias. Montamos a estrutura necessária e enviamos uma instrutora nossa para conduzir o projeto dentro da penitenciária. De lá para cá, crescemos bastante, principalmente, porque percebemos que existia um grande interesse das detentas em participar do projeto. Como o único requisito era manter bom comportamento dentro da prisão, formou-se uma fila de presas interessadas em trabalhar conosco.

LG lugar de gente: Qual o objetivo da Lafort ao iniciar esse programa? Vale a pena investir nesse projeto?

Irit Czerny: O objetivo do projeto é permitir que essas mulheres tenham uma nova chance. Além disso, cada dia trabalhado também reduz a pena. Assim, quando elas cumprem o tempo determinado pela Justiça são desvinculadas do projeto e a vaga é aberta para outra presidiária.

Você me pergunta se vale a pena investir nesse projeto e eu digo que se pensarmos a nível de lucro para a empresa, não vale. Mas, se refletirmos sobre o trabalho social e o que nós podemos fazer por essas pessoas, vale muito a pena.

Nós temos orgulho em fazermos nossa parte na sociedade. Com esse projeto, as pessoas tem oportunidade de começar de novo, inclusive, dentro da própria Lafort. Acredito que quando você dá para a sociedade, ela te retorna, de uma maneira muito maior, porque a empresa se torna querida.

LG lugar de gente: Quais foram os maiores desafios que a Lafort enfrentou para implantar esse projeto?

Irit Czerny: No início, nossos colaboradores não entendiam muito bem porque a empresa queria ajudar pessoas que cometeram algum delito, enquanto poderia usar o investimento para dar oportunidade ao restante da sociedade. Foi necessário um trabalho de boca a boca para mostrar que o projeto só iria para frente com o apoio deles.

Dessa forma, eles passaram a enxergar a importância do projeto de ressocialização, a partir do momento que refletiram sobre o tema. Afinal, isso pode vir a acontecer com um membro de sua própria família e, no fim das contas, os benefícios são para a sociedade como um todo.

LG lugar de gente: Você incentiva o investimento em responsabilidade social?

Irit Czerny: Eu acredito que todo empresário deve investir em responsabilidade social. O fato de um empreendedor ter escolhido uma área de investimento, já demonstra que ele acredita na sociedade, devido aos riscos que essa atividade por si só impõe. E, se o empresário acredita na sociedade, ele precisa dar um retorno para ela.

LG lugar de gente: Qual o impacto dessa prática na vida das pessoas atendidas pelo projeto?

Irit Czerny: Como o material desenvolvido dentro da penitenciária tem uma grande visibilidade, inclusive internacional, as detentas se sentem valorizadas em participar do projeto. E muitas delas, como eu já disse, são contratadas pela empresa. Pode parecer algo simples, mas é na verdade dá um retorno enorme, porque a pessoa deixa de estar ociosa, aumenta sua autoestima e é incentivada a buscar um trabalho quando sair da penitenciária.

Todo mundo tem sua responsabilidade, tem que mudar, tem que caminhar direito. Mas, não cabe a mim julgar, se eu puder, quero ajudar. O julgamento já foi feito, a minha parte cabe fazer o que posso dentro da minha área de atuação.

 

Irit Czerny é Diretora Criativa da marca Lafort há 25 anos. Atualmente, também é diretora do Sindicato da Indústria Têxtil do Paraná (Sinditextil) e atua também como conselheira da Câmara Setorial do Vestuário do Paraná.
 

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