Virei chefe do meu amigo. E agora?

Data 06/03/2013

Com a saída da antiga sócia na agência de comunicação que tocavam juntas, Fabiana Salviano se viu na necessidade de contratar alguém confiável, profissional, com experiência, postura irretocável frente a clientes e autonomia. A solução encontrada foi convidar uma amiga para trabalhar com ela. Se, por um lado, a opção era confortável por envolver alguém de confiança, por outro, tornar-se chefe de alguém tão próximo pode provocar saias justas. “Apesar de conhecê-la e saber que ela é muito boa no que faz, fiquei com receio de não nos adaptarmos em vários sentidos”, lembra Fabiana. “Não sabia se ela aceitaria orientações ou cobranças, se gostaria do nosso esquema de trabalho e, principalmente, se teria problemas com os clientes”, completa. Para completar vinham outras dúvidas: como se faz para dispensar uma amiga, caso necessário? Como fica a relação com os demais funcionários?

Em situações como essa, os problemas mais comuns, de acordo com Flávia Muraro, da Movere Consultoria, é o favoritismo e o excesso de liberdade entre chefe e amigo/colaborador. O extremo oposto, no entanto, também pode acontecer. “Vemos muitos casos em que, por medo de serem julgados, ambos acabam se afastando”, conta. “Também há situações nas quais, para não ser acusado de proteger o amigo, o chefe adota um nível de exigência extremamente alto e superior ao que cobra do restante de sua equipe”, comenta.

A consultora acredita que não há motivos para que a relação de amizade seja um problema. Por isso, não se deve esconder a amizade dos demais colaboradores. “Tive um chefe que era muito amigo de um colega da equipe, mas eles faziam questão de esconder a amizade. Quando descobri que eram muito próximos, que as famílias se conheciam e viajavam juntos nas férias, não somente eu, mas todos da equipe se sentiram traídos pela falta de clareza nas relações”, relembra Flávia.

Transparência e critério

Adotar uma comunicação clara e transparente é o método mais simples e efetivo para prevenir situações adversas. “É importante que todos, inclusive o amigo, entendam que o chefe é a mesma pessoa, porém em um papel diferente no qual precisa cobrar, orientar, treinar, controlar, apoiar, avaliar e dar conta de uma série de outras atividades”, explica.

Seguindo nesta linha, Fabiana mantém o mesmo padrão de comportamento com toda a equipe. “Quando preciso chamar a atenção de qualquer colaborador, procuro falar numa boa, mostrando como a falha daquela pessoa afetou o time, a empresa e até ela mesma”, conta. “Em todos os lugares existe cobrança e é importante que todos saibam lidar com isso, sem levar para o lado pessoal”, afirma.

Adotar critérios objetivos para avaliação e reconhecimento da equipe e deixar claro quais são eles também são formas adequadas de separar a amizade da atividade profissional. “O gestor deve sempre se perguntar: se eu for questionado sobre minhas decisões, saberei justificá-las com base em indicadores objetivos e argumentos sólidos? Se a resposta for diferente de sim pode ser que amizade e decisões corporativas estejam se confundindo”, esclarece Flávia.

Segundo a especialista, alguns hábitos durante o horário comercial também devem ser modificados, como no caso de amigos que antes almoçavam sempre juntos durante a semana. “Isso deve ser dividido agora com os demais colaboradores”, indica Flávia. Além disso, nos encontros fora do expediente, lembra, nada de trocar confidências ou abastecer o amigo com informações privilegiadas. “Vale sempre fazer uma autoanálise com muita autocrítica para ver se não devemos corrigir algo e melhorar nossa relação. Para isso, a reação alheia pode ser um bom indicador”, finaliza.


*Essa notícia foi publicada no site Canal RH, em 25/02/2013

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