Cuidados paliativos nas empresas: por que o RH precisa falar de morte?

Data 02/07/2019
Cuidados paliativos nas empresas - Ana Cláudia Arantes

Abordar os cuidados paliativos nas empresas ainda é um desafio para muitos RHs. Para a Médica especialista em Geriatria e Gerontologia, Ana Cláudia Arantes, a morte ainda é um fato que as companhias ignoram e que influencia na forma como os colaboradores de qualquer organização aproveitam o seu tempo. Palestrante da 45ª edição do Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas (CONARH), que acontece de 13 a 15 de agosto no São Paulo Expo, ela levará ao evento o tema “A morte é um dia que vale a pena viver”.

Sócia-fundadora da Associação Casa do Cuidar, Ana Cláudia pretende debater a importância dos cuidados paliativos nas empresas, mas isso passa pela remoção do tabu que cerca a morte. “Conversar sobre a morte faz com que todo o trabalho ao qual você vai dedicar seu tempo tenha valor”, afirma.

A importância do debate

Com 25 anos dedicados ao tema, a especialista explica que os cuidados paliativos nas empresas devem ser um conjunto de recursos que acompanha o indivíduo rumo a um envelhecimento e luto que não sejam incapacitantes. “Esse é um conceito muito novo para as pessoas porque todo mundo tem o preconceito do cuidado paliativo como jogar a toalha. ‘Desistiu de tudo? Chama a Dra. Ana, porque então é cuidado paliativo e vai morrer’. Não é isso; é o contrário. Digo que aí a brincadeira começa. Aí a vida começa”.

Para romper esse estigma, a médica ressalta a importância de se falar sobre a morte precocemente ao invés de ignorá-la. De acordo com o Professor de Comportamento Organizacional Jeffrey Pfeffer, autor do livro Dying for a Paycheck (Morrendo por um Salário), a análise de dados coletados por diversos organismos públicos e privados mostra que só nos Estados Unidos 120 mil pessoas tenham o fim de suas vidas relacionados ao trabalho, com um prejuízo de 180 bilhões de dólares.

Mesmo assim, a morte, seja relacionada a doenças ligadas ao trabalho ou a outros motivadores, continua fora da discussão. “Eu iria ficar muito feliz em saber que alguma empresa se preocupou, dentro do RH, em oferecer suporte ao luto. Fazemos grandes planos para a aposentadoria, por exemplo, que não deixa de ser um processo de luto já que você vai deixar de levar uma forma de vida. Mas até os programas de aposentadoria vinculam-se apenas a coisas superficiais como empreendedorismo e qualidade de vida. Não falam das questões objetivas de envelhecimento, sobre como lidar com esse processo”, lamenta Ana Cláudia.

cuidados paliativos nas empresas
Ana Cláudia Arantes, Médica especialista em Geriatria e Gerontologia

Para ela, a inabilidade de vencer o preconceito e as abordagens padronizadas para remediar experiências naturais à passagem do tempo acabam gerando um efeito cascata negativo dentro e fora das organizações. “Enquanto não tomarmos consciência sobre o impacto que a morte traz para a nossa vida não vamos conseguir oferecer e receber o melhor das pessoas. Por exemplo, nesse universo do RH nas empresas, os profissionais que perdem um familiar têm direito a três dias de licença, como se a sua vida depois que você perde sua mãe, seu pai ou seu filho pudesse voltar ao normal em três dias. Essa é uma irresponsabilidade que tem seu preço porque a pessoa vai voltar ao trabalho e vai ter comprometimento em seu desempenho não só cognitivo, mas nos resultados e na performance diante do trabalho. Ela vai se perceber desautorizada a sentir tristeza perante a perda”, alerta.

RH mais humano

Apesar de reconhecer que ainda não existem grandes movimentos em relação à gestão adequada do luto no mundo corporativo, Ana Cláudia garante que a discussão tem avançado em diversos países para além do ambiente hospitalar. “Você tem design thinking, arquitetos, políticos, entre outros, falando sobre morte e de uma forma objetiva, no sentido de trazer uma consciência, uma lucidez para o que importa na sua vida”, afirma.

Já dentro das empresas, a palestrante explica que isso passa pelo estabelecimento de um RH humanizado de fato. Segundo ela, apesar da nomenclatura da área, é preciso perceber seus funcionários não como um recurso, mas sim como a essência de todo o processo.

Para esse fim, ela ressalta que esse caminho tem início na conscientização dos profissionais de RH acerca de seus próprios cuidados em relação à passagem do tempo e preparação diante da finitude da vida. “Essa responsabilidade diz respeito a você despertar no ser humano também a atenção ao autocuidado. Uma boa empresa não é aquela que oferece massagem na sala de café, que dá um brinde quando você não falta. É aquela que se importa em saber por que você faltou, que promove uma consciência nos seus funcionários a respeito do autocuidado, que ao invés de oferecer comida orgânica ensina a cozinhar”, recomenda.

Assim, é crucial que a gestão vá além das funções descritas em cargos para perceber as pessoas por trás de cada posição. Para Ana Cláudia, essa abordagem tende a atribuir o devido valor ao tempo, auxiliar no estabelecimento de hábitos saudáveis e contribuir para a compreensão da morte como parte natural da vida.

Ela salienta que é essa noção de finitude que faz com que cada tarefa seja executada com propósito. “Digo que pensar sobre a morte é um grande acelerador de felicidade, porque, se pensar que semana que vem pode estar morto, você sabe o que tem que fazer essa semana. Ajuda a tomar decisões”.

Subindo ao palco do 45º CONARH no dia 15 de agosto, às 10h, Ana Cláudia Arantes espera despertar nos participantes o senso de humanidade nas relações profissionais, mas garante que os reflexos de encarar a morte livre de tabus são benéficos a todas as esferas de relacionamentos. “O que eu pretendo transmitir é algo que possa ter valor na transformação das vidas que estão em jogo nesse encontro, não só na dos que estão participando do evento, mas também de todos aqueles que estão vinculados a essas pessoas, sejam família, amigos ou funcionários”, finaliza.

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