Licença-paternidade: por que a revisão do benefício deve estar na pauta do RH?

Estudo mostra que pais querem se envolver mais nos primeiros cuidados de seus filhos. Portanto, garantir esse benefício pode ser crucial na retenção de talentos

Qual a importância dada por sua empresa à licença-paternidade? De acordo com o relatório Situação da Paternidade no Mundo 2018, promovido pela Promundo com aproximadamente 12 mil pessoas em 11 países, 85% dos pais afirmam que querem se envolver nas primeiras semanas e meses de cuidado com o filho. A pesquisa identificou que, para eles, a forma como organizações e legislação lidam com a licença-paternidade impõem barreiras tão grandes quanto os padrões culturais que ainda enxergam a atenção com as crianças como tarefas femininas.

licença-paternidade

Atentas a esse cenário, organizações estão revendo as políticas de RH e permitindo que os funcionários tenham mais tempo com os recém-nascidos. Mas, afinal, o que isso significa para as companhias?

Licença-paternidade no Brasil

No Brasil, a licença-paternidade é vista como o principal direito trabalhista de homens que possuem filhos. A Constituição Federal estabelece que os pais tenham cinco dias em casa com o recém-nascido ou filho adotivo a partir do primeiro dia útil após o parto.

Esse benefício pode chegar a 20 dias de dispensa remunerada com a adesão da organização ao Programa Empresa Cidadã, da Receita Federal. Através da iniciativa, o empregador recebe o direito de deduzir do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) a remuneração paga ao colaborador durante o período de afastamento.

Considerando que apenas 48% dos países no mundo oferecem a licença-paternidade remunerada, a legislação brasileira coloca o Brasil em situação de destaque. Segundo os dados da Receita de julho de 2019, mais de 20 mil empresas já fazem parte do programa que viabiliza a extensão do período.

Atraindo e retendo pais profissionais

Uma delas é a Kimberly-Clark Brasil, que aposta no alinhamento entre seu propósito, de “liderar o mundo no que é essencial para uma vida melhor”, e o tratamento dado ao seu público interno. Entre os resultados desse trabalho, a companhia está há uma década entre as 10 melhores empresas para se trabalhar no Brasil, de acordo com o Great Place to Work (GPTW).

Para a Diretora de RH da organização, Alessandra Morrison, o objetivo é oferecer ações e benefícios que se adaptam às diferentes escolhas e momentos de vida de cada um. “O nosso valor ‘cuidado’ é diariamente aplicado e reforçado com todos os públicos com os quais a companhia se relaciona”, pontua. Além de oferecer os 20 dias de licença-paternidade, a empresa também prevê a extensão do afastamento em até 10 dias adicionais em casos de nascimento prematuro.

Quem também optou por uma política semelhante foi o grupo Via Varejo, responsável pelas lojas das bandeiras Casas Bahia e Pontofrio. Com a proposta de permitir que os pais do seu quadro de colaboradores participassem dos primeiros dias de vida dos filhos, a varejista passou a oferecer os 15 dias extras de licença-paternidade desde 2018.

Sobre a mudança na política de RH, Juliana Andrade que atua na Comunicação Institucional e Imprensa da Via Varejo, afirma que isso fortalece o vínculo nos cuidados com o bebê, o que resulta em um aumento expressivo de satisfação dos colaboradores. Em pouco mais de um ano, mais de 600 colaboradores da Via Varejo já usufruíram do benefício.

Família e mercado profissional

De acordo com o relatório Situação da Paternidade no Mundo, o envolvimento masculino no cuidado familiar é uma questão de saúde. Dos 11 países pesquisados, sete – com renda média e alta – afirmam que mais de 65% das mulheres mães teriam melhor bem-estar físico e mais de 72% concorda que elas teriam ganhos de saúde mental se os pais tirassem pelo menos duas semanas de dispensa.

Gigante do setor de tecnologia, a IBM vai de encontro com a opinião das entrevistadas. Depois de começar com 20 dias de licença paternidade, a organização expandiu o período para um total de 30 dias por entender a importância da presença do pai para toda a família.

Como explica o Gerente de Recursos Humanos da IBM Brasil, Bernardo Marinho, essa ampliação do benefício na organização seguiu uma mudança clara na sociedade. “Hoje, é comum termos homens e mulheres dividindo as tarefas domésticas e não mais um cenário desigual, em que o peso da criação dos filhos recai apenas em um dos pais. Os funcionários esperam isso das empresas e existem vários estudos que demonstram que esse tipo de flexibilidade traz retenção de talentos e também um maior engajamento de funcionários”, completa.

Indo além dos reflexos positivos imediatos, Bernardo esclarece que a medida tende a fortalecer a cultura organizacional no longo prazo. “Os benefícios não ficam apenas para a empresa, uma vez que a política acaba impactando positivamente a vida familiar, com pais mais participativos nas tarefas domésticas e com maior proximidade dos filhos. Notamos que nossos funcionários que já usufruíram do benefício ficaram gratos pelo tempo a mais com a família e voltaram mudados com a nova experiência, mais engajados. Todos saem ganhando: empresa e colaboradores”, relata.

Experiência do colaborador

A influência da estrutura familiar no desempenho profissional parece ganhar força entre as empresas. Como explica Alessandra Morrison, na Kimberly-Clark, as políticas adotadas são essenciais para auxiliar na rotina familiar e facilitar o cotidiano dos colaboradores.

Para a Diretora, isso vai além de programas de home office ou a sexta-feira curta. “No caso de colaboradores que escolhem ter filhos, a Kimberly-Clark se preocupa em oferecer benefícios, na sua maioria, válidos para mães e pais, contribuindo assim com todas as composições familiares”, afirma Alessandra.

Assim como a oferta de licença-paternidade estendida, a escolha de cada benefício se baseia na realidade dos funcionários. “Buscamos manter nossas políticas atualizadas às práticas de mercado e às necessidades de nossos colaboradores, por exemplo, quando falamos de flexibilidade. Mas, acima de tudo, cuidamos em ter líderes próximos, representando nossos valores em suas atitudes e comprometidos com o desenvolvimento das nossas pessoas”, finaliza.

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leticia.almeida

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