Por que um profissional nota 10 tornou-se um líder nota 1?

Data 16/03/2017

Por Silvio Celestino*

Imagine se você fosse aos hospitais e descobrisse que 60% dos médicos nunca estudaram medicina básica. Ou, então, que nas companhias aéreas 70% dos pilotos nunca fizeram o curso básico de pilotagem de aviões. Seria assustador, não?

Surpreendentemente, um estudo mostra que 85% dos novos gerentes nunca tiveram treinamento sobre liderança. E me arrisco a dizer que mesmo os gestores com mais experiência também nunca passaram por ele. Portanto, você pode não encontrar um médico ou um piloto de avião sem o treino básico em suas áreas, mas é extremamente provável que encontre gerentes de hospitais e de companhias aéreas sem nenhum treinamento em liderança.

Isso, por si só, é motivo para gerar de graves problemas nas empresas. Um líder malformado acarreta muito estresse, clima organizacional negativo, desmotivação e prejuízos financeiros. A causa disso é que o indivíduo espera que a empresa o treine em liderança.

Entretanto, levando em conta a crise atual, a maioria das companhias não possui recursos suficientes para esse fim e, mesmo em períodos melhores, boa parte do orçamento para a formação de líderes é reservada àqueles que estão há mais tempo no cargo.

Felizmente, há uma opção disponível para todos, inclusive você: escolha um líder de referência. Procure na história, em sua família ou mesmo na sua experiência profissional pelos líderes que você admira. Se for optar por um perfil histórico, por exemplo, José Bonifácio de Andrada e Silva, procure ler tudo a respeito dele: como pensava? Qual era seu propósito?

Se for um líder com quem você trabalhou ou alguém de sua família, entre em contato com ele, pergunte como ele pensava a liderança. Quais eram seus valores? A importância de ter um líder de referência é que, principalmente quando você estiver em uma situação muito difícil, sempre poderá questionar: o que será que esse ele faria em meu lugar? E assim, obter uma luz para suas ações. Em geral, grandes líderes tiveram outros como referência. Por exemplo, Martin Luther King Jr. lutou pelos direitos civis por meio da não violência porque tinha Ghandi como ídolo.

A segunda ação que você deve fazer para desenvolver-se como líder é aprimorar sua comunicação. Em geral, o que mais faz um profissional nota 10 tornar-se um líder nota 1 é que ele é incompreensível. A linguagem operacional não é apropriada para ser utilizada em níveis gerenciais, principalmente quando estão presentes gestores em cargos mais elevados e de outros departamentos. Não se espera que um gerente de marketing entenda jargões de tecnologia da informação, ou que um de recursos humanos entenda de engenharia. Todo gestor deve adequar sua linguagem para tornar-se compreensível por aqueles que não são de sua área.

O terceiro ponto fundamental é o novo gerente saber quais são as ferramentas que estão ao seu dispor para realizar seu trabalho: as competências de liderança. Além da comunicação, o novo gestor deverá aprender a delegar, fazer follow-up, dar feedback, motivar pessoas e fazer uma gestão rigorosa de sua agenda, entre outras habilidades. Não há atalhos para aprendê-las – o gerente deve conhecer as melhores práticas e exercitá-las.

O líder também deve compreender que seu estilo de liderança não é necessariamente o mais apropriado para todos os momentos. Afinal, é o contexto que define como ele deve se comportar. Quando um gestor tenta ser democrático em um momento de crise, ou mobilizador quando há desavenças entre departamentos, pode agravar a situação em vez de solucioná-la.

Por último, a competência mais demandada de todo gerente é a compreensão de sua responsabilidade pelos resultados da empresa. É impressionante como muitos gestores acreditam que somente os departamentos de venda e financeiro devem se preocupar com o lucro. Quando, na verdade, ele depende da capacidade de atrair clientes, principalmente os mais lucrativos, e retê-los. Afinal, não adianta nada o departamento de vendas conquistar um novo cliente, mas os demais setores o perderem por negligência.

A cada instante, os momentos de contato do cliente com a empresa podem criar ou destruir valor para a marca. Os profissionais sob responsabilidade do líder são os principais responsáveis por essa experiência. Portanto, se um gestor deseja que os clientes sejam atendidos com muito respeito, deve tratar seus funcionários da mesma forma. Pois essa é, provavelmente, a única maneira de gerar uma mensagem consistente e que se propague com a força necessária para ser lembrada por todos, especialmente por aqueles que estão em contato com os clientes.

O importante é que o novo gestor se transforme em um líder tão bem-sucedido como o foi até o momento em sua carreira técnica. E que auxilie a empresa a criar uma comunidade formada pelos clientes, funcionários e os líderes da companhia.

silvio celestino

*Silvio Celestino é sócio sênior da Alliance Coaching – empresa especializada no Top Executives de Coaching no Brasil e no exterior. Fundador da “Enlevo – Treinamento para Líderes” e ex-Vice-Presidente da International Coach Federation Capítulo São Paulo (Brasil). 

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